“Não queremos rotular o que fazemos”

 

Shadowside é aquela banda que gostamos de entrevistar porque não mede as palavras, não apenas cito opiniões, mas o tamanho destas respostas. Mas não é disso que vamos abordar. Com álbum novo na praça, tive o privilégio de ouvir, em primeira mão, o  “Shades of Humanity” e captar a  vibe desse play. Conversi com a Dani Nolden e Magnus Rosen sobre a nova formação, o lançamento, inspirações, vida, passado, presente e futuro. Confira!

 Por Pei Fon | Foto: Banda/Divulgação

Olá pessoal, estamos aqui mais uma vez. Desde já agradeço o tempo para esta entrevista. Por favor, não precisa medir as palavras.

Dani: Nós que agradecemos pelo espaço, obrigada pelo apoio!

Quarto álbum lançado. Seis anos de diferença desde “Inner Monster Out”. Apresente “Shades of Humanity” para nós.

Dani – Eu sinto que o “Shades of Humanity” é o nosso álbum mais completo e maduro. Já estávamos chegando no que queríamos no nosso álbum anterior, o “Inner Monster Out”, e na época estávamos plenamente satisfeitos com ele, mas sempre achamos importante procurar sempre dar um passo acima. A gente sempre acha que o próprio filho é perfeito (risos), mas nunca existe algo perfeito, então colocamos no “Shades of Humanity” uma dose extra de melodia, porém com uma dose extra também de peso. A sonoridade agora é ainda mais intensa, acho que nosso som está hoje visceral e musical ao mesmo tempo. Procuramos equilibrar brutalidade com melodia, e acho que o “Shades of Humanity” é um trabalho que pode agradar tanto a alguns fãs de metal extremo, por conta dos riffs e instrumental pesados e nervosos, quanto aos fãs de algo mais melodioso, por causa da atenção que demos aos refrãos e aos arranjos.

Se comparar IMO com Shades, é perceptível que a banda cresceu bastante musicalmente. Ao que atribui esse amadurecimento musical?

Dani – O tempo e a estrada fazem muito bem para uma banda! Além disso, a gente sempre acha que existe espaço para melhorar, como eu comentei antes. Acho que uma banda começa a decair quando ela acha que já chegou ao seu máximo, e eu sinceramente não acho que esse máximo exista. Se não existe perfeição, sempre existe espaço para buscar algo novo, algo melhor, então nossa filosofia na hora de compor sempre é ter o álbum anterior como parâmetro e tentar fazer algo que, ao menos na nossa opinião, seja superior.

Magnus – Nós conversamos bastante antes de compor o álbum. Foi uma mistura da cultura brasileira da Shadowside com um tempero da Suécia e da minha experiência, o que provavelmente foi a receita para o novo disco. Na minha opinião, a Shadowside fez um belo trabalho. Foi como erguer a bandeira de uma colaboração de sucesso entre o Brasil e a Suécia.

Em time que está vencendo não se mexe. Gravar na Suécia faz toda essa diferença? Ainda mais que um sueco está na banda.

Dani: Sem dúvida alguma… eu acho que a questão não é gravar na Suécia, mas o trabalho que o Fredrik Nordström e o Henrik Udd, nossos produtores, são capazes de fazer. Tenho certeza que eles tirariam essa mesma sonoridade em qualquer lugar do mundo, até porque nós já gravamos em estúdios aqui no Brasil teoricamente mais equipados do que o estúdio do Fredrik, mas a sonoridade não ficou igual. A mão do profissional faz uma grande diferença. Nós temos profissionais extremamente competentes aqui no Brasil, mas a especialização faz uma diferença enorme. O Fredrik e o Henrik trabalham só com Rock e Metal. Eles vivem isso, respiram isso, e aqui no Brasil, a grande maioria dos profissionais não têm essa oportunidade, mesmo aqueles produtores dedicados ao Rock e ao Metal, que muitas vezes são obrigados a trabalhar com outros tipos de música para sobreviver, ou não conseguem trabalhar com tantas bandas quanto o pessoal da Europa, porque aqui no Brasil a realidade financeira das bandas é bem diferente… então não acho que falte qualidade no Brasil, mas é que o Fredrik e o Henrik são produtores que são simplesmente fora de série dentro do Heavy Metal. Gravar na Suécia acaba sendo mais uma questão financeira e logística, porque fica muito mais caro trazer os dois para o Brasil, coloca-los em um hotel, pagar um estúdio em São Paulo e ter que enfrentar trânsito de 1 hora e meia, duas horas, para chegar ao estúdio todos os dias. Colocando tudo no papel, acaba saindo bem mais barato e produtivo irmos até a Suécia, porque como o estúdio lá é também uma casa, logo depois do café da manhã todo mundo está pronto pra gravar. Nos dedicamos integralmente ao álbum e no final das contas, economizamos muito tempo e muito dinheiro com isso, além de o resultado final, ao menos no meu caso, ficar muito melhor por conta disso.

No “Theatre of Shadows” e no “Dare to Dream”, nossos dois primeiros álbuns, eu não rendi tudo que podia. Claro que aprimorei minha técnica ao longo dos anos, mas ainda assim, parte da diferença entre os dois primeiros álbuns e nos dois mais recentes, com relação ao meu vocal, é por não ter precisado enfrentar 4 horas de viagem todos os dias para chegar ao estúdio. Eu moro em Santos e gravamos o “Theatre of Shadows” e o “Dare to Dream” em São Paulo. Pagar um hotel perto do estúdio estava fora de cogitação por questões financeiras, então o jeito era pegar a estrada todos os dias, e para a gravação render, tinha que acordar cedo… e eu sou noturna. Eu vou dormir às 7, 8h da manhã. Então, como não consigo trocar o horário e dormir em horário normal de jeito nenhum, eu dormia pouco todos os dias, enfrentava a estrada todos os dias, então chegava um ponto que eu já estava simplesmente cheia e não aguentava mais gravar. Eu não percebia mais os erros, ou não me importava com eles. E isso mudou completamente na gravação do “Inner Monster Out”… a gravação foi muito, mas muito mais rápida, mais fácil, eu não me cansava e minha voz respondia ao que eu queria fazer. E agora no “Shades of Humanity” isso ficou mais potencializado, porque eu já sabia como seria a gravação e fui totalmente tranquila. Muitas das músicas foram gravadas em um único take, porque eu estava tão relaxada que as coisas simplesmente saíam. Nas músicas que precisavam de mais takes, eu estava descansada, em paz, e cantava quantas vezes precisasse, sem perder a paciência comigo mesma… e o resultado disso fica evidente. Muita gente comentou como eu evoluí ao longo dos anos, como minha voz está melhor… e é claro, eu estudei, cheguei até a fazer cursos de especialização na Berklee, mas o grande responsável por essa evolução foi o processo de gravação.

O baixo tem sido o instrumento que mais se mexeu na formação da banda. O que Magnus Rosén traz para somar à sonoridade do Shadowside?

Magnus: É difícil dizer. Mas acho que a maior diferença é que nossos históricos musicais inspiram novos sons. A Shadowside tem ótimos músicos e eu adoro o novo álbum.

Dani: Eu considero o Magnus um dos melhores baixistas de Metal do mundo, se não o melhor. E isso é sincero, não é porque ele está na banda, mas eu e os meninos da banda sempre admiramos o Magnus. Ele traz experiência e uma habilidade e bom gosto na composição das linhas de baixo dele que fizeram uma diferença enorme no nosso som.

Dani e Magnus, diante do que temos visto no mundo, as atitudes da humanidade beiram ao colapso, vocês acreditam que existe uma saída?

Dani – Acredito que sim… eu acredito na humanidade. Mas acho que vai levar muito tempo e não acho que vamos estar vivos pra ver isso. Acho que a internet fez com que mostrássemos a nossa verdadeira cara como seres humanos. Estamos despejando ódio contra todo mundo que é diferente da gente ou tem uma opinião diferente da gente, mas eu acho que sempre foi assim, a internet só nos deu a coragem. Por um lado, isso é ruim, porque estamos atirando ofensas para todos os lados, mas ao menos pudemos identificar que isso existe. A humanidade está doente, mas sempre esteve, nós só não sabíamos disso… e agora que sabemos, podemos pelo menos tentar pensar em uma solução.

Magnus – A raça humana precisa de esperança. A esperança é a última que morre. Enquanto houver esperança, existirão oportunidades. Precisamos acender a luz na escuridão, é a nossa missão como seres humanos. Nós, na Shadowside, queremos servir para dar esperança, força e inspiração aos nossos amigos no Rock.

 “Alive” foi a primeira música a ser divulgada. Dani mostra sua versatilidade vocal em soar agressiva e doce ao mesmo tempo. A música, com certeza, é uma das minhas preferidas. Dani, foi uma mudança natural? Um desejo? De onde veio a inspiração?

Dani – Foi uma mudança natural, eu só observei que mudei bastante minha forma de cantar quando ouvi, depois de muitos anos, os primeiros trabalhos que gravei. Eu só fui sentindo a necessidade de explorar outros aspectos da minha voz, de dar à música aquilo que ela precisava, sem deixar de lado aquilo que eu já fazia, que era soar agressiva. Então acabei misturando as nuances, sendo agressiva em alguns momentos, mais delicada em outros, explorando mais todas as regiões da minha voz… fui me descobrindo como cantora. A inspiração para o vocal na “Alive” veio da própria música e da história dela. Essa é uma música sobre depressão e sobre superação. A letra é bem real e relata a luta interna que eu vivi durante muito tempo… e acho que a voz acabou acompanhando isso, porque a música relata os momentos de entrega e desistência, assim como os momentos em que eu gritava por dentro. Então tentei interpretar isso o melhor possível.

Em que momento se sentem ‘vivos’?

Dani – Eu me sinto viva quando estou perto das pessoas que amo e ajudando pessoas, mas também me sinto muito viva nos momentos de dor, não só dor física, mas também emocional. Se está doendo, significa que você está vivo. E cada dia é um presente.

Magnus – Você está mais vivo quando sente amor! O amor é a maior fonte de poder, é o que cria, que dá a vida ao ser humano. Essa é a grande verdade. Além disso, me sinto vivo quando estou tocando nosso Heavy Metal.

“Unreality” foi escrito pelo Magnus e Andy La Rocque. Mal entrou e já trouxe essa contribuição. Magnus, você já tinha essa canção escrita ou ela saiu naturalmente com o entendimento da sonoridade do Shadowside?

Magnus – Do meu ponto de vista, a Shadowside é uma ótima banda, de excelente ética e que tem muita consideração pelos outros, e isso permite que oportunidades de inovar com as nossas histórias diferentes na vida e na música apareçam. Então, ser membro da Shadowside é muito bom. “Unreality” é uma composição minha com o guitarrista Andy La Rocque (King Diamond), e os membros da banda acrescentaram seus toques a ela.

Dani – Eu, o Raphael e o Fabio já chamamos o Magnus para a banda deixando claro que ele teria toda a oportunidade para compor e dar ideias para as músicas que o restante da banda fizesse, porque nós acreditamos muito nesse trabalho em equipe, como sempre falamos… não faz sentido pra nós ter alguém na banda só pra executar, sem considerar o que aquela pessoa pensa e as sugestões dela. Bandas precisam disso. Quando alguém passa a fazer parte da Shadowside, aquela pessoa precisa passar a ser parte da identidade do grupo, então nós nunca tentamos explicar muito o que era a nossa sonoridade pro Magnus, porque não queremos rotular o que fazemos, nem influenciar o que a pessoa gosta de compor. E hoje, o Magnus também faz parte dessa sonoridade da Shadowside. Se fizéssemos esse álbum sem ele, ou mudando qualquer outro membro da banda, provavelmente soaria diferente. Talvez não de forma radical, mas é um fato que tem um tempero individual de cada um nesse trabalho.

Ouvindo “Beast inside” fico imaginando uma guerra de pensamentos no indivíduo. Quem seria essa ‘besta’ dentro de nós, uma vez que temos um lado obscuro?

Dani – “Beast Inside” na verdade é o que eu imagino que Deus gostaria de dizer pra nós: que entendemos tudo errado! Mesmo que você seja ateu, acho que a mensagem dessa música pode ser interessante, porque o que mais vemos é as pessoas usando a religião da maneira mais conveniente, e não como realmente é ensinada. Eu sou cristã, e o que me ensinaram nessa religião foi a não julgar e a amar a todas as pessoas. E não é isso que vemos entre a maioria das pessoas religiosas, infelizmente. Se você é umbandista, ateu, ou qualquer que seja sua crença, você não é menos que eu, eu não sou superior a você. Só significa que somos pessoas iguais, com os mesmos defeitos, apenas acreditamos em coisas diferentes, mas não significa que você esteja errado. Se você é ateu e acha que eu acredito em um amigo imaginário, eu respeito sua opinião. Talvez você esteja certo. Talvez eu esteja certa. Mas não importa. O que importa é termos respeito uns pelos outros, e essa ‘besta’ que temos dentro de nós não respeita nada nem ninguém. Usamos nossas crenças e convicções para apontar o dedo, para fazer o mal, para justificar nossos erros, espalhamos destruição por onde passamos… só que nós nascemos puros! Um bebê é incapaz de fazer mal a alguém. E “Beast Inside” é esse questionamento… quando foi que nós esquecemos dessa pureza e aprendemos a ser monstros?

Dani, os demais álbuns foram escritos, majoritariamente, por você. SoH foi diferente. Um pouco menos de ‘responsabilidade’ total, mas que também não perdeu a essência do que desejava, não é?

Dani – Na verdade, eu nunca fui a única responsável pelas composições como um todo, eu sempre fiz as letras e melodias, e participava do processo de composição, mas o mérito nunca foi só meu. A minha participação nas composições não mudou, a diferença é que nos dois últimos álbuns nós passamos a trabalhar em conjunto, por isso as músicas recebem os créditos de “compostas por Shadowside”.

No “Inner Monster Out” cerca de metade das ideias iniciais foram minhas e metade do Raphael, e no “Shades of Humanity” eu trouxe as ideias iniciais de “Alive”, “Beast Inside” e “Insidious Me”, mas também tivemos uma ideia inicial do Fábio, duas do Magnus e o restante do Raphael, ou seja, todos participaram do processo de composição. Mesmo quando as ideias iniciais vieram de um membro específico da banda, todos nós, como um grupo, mudamos estruturas, arranjos, melodias, até que todos estivessem satisfeitos com o resultado, e a música finalizada, registrada no álbum, acaba ficando muito diferente daquilo que era a ideia original.

Em “Shades of Humanity” eu acabei escrevendo todas as melodias e letras, mas sempre com as sugestões dos rapazes e dos nossos produtores, e há mudanças de todos nós em todas essas músicas. Tanto o “Inner Monster Out” quanto o “Shades of Humanity” são trabalhos de um grupo, álbuns que uma banda fez junta, unida e o resultado é mérito de todos. O “Shades” é exatamente aquilo que eu desejava. Ele é tudo que eu gosto de ouvir e sonhava em gravar na minha carreira. E isso só foi possível por causa desse trabalho em equipe.

Dani, fico imaginando que é complicado buscar inspiração ‘do nada’. Quando escrevo um texto é para apaziguar meus pensamentos, seria assim para a composição, transpor o que está sentindo naquele momento? Ou não é isso, você busca uma temática e trabalha nela?

Dani – Eu tenho escrito como você, o “Shades of Humanity” foi meio que um diário, exceto a letra de “Unreality”, que foi inspirada em um dos meus filmes favoritos, “A Origem”. Todo o restante veio do que eu penso, vejo e sinto. E foi um processo meio forçado dessa vez, porque eu escrevi praticamente todas as letras do álbum em 19 dias. Noites, pra ser mais exata. Minha avó fez uma cirurgia que era para ser simples e acabou tendo complicações, então ela ficou internada durante 19 dias e alguém tinha que estar sempre com ela… eu e minha família revezávamos, e eu peguei o “turno” da madrugada. Ela dormia, só me pedia alguma coisa se queria água, ou algo assim… então eu passava as madrugadas lá, com pouco o que fazer além de meus pensamentos e meu computador, e comecei a registrar tudo que estava passando na minha cabeça. Quando eu tento forçar um tema, normalmente não sai nada (risos).

Para finalizar, o que podemos esperar do Shadowside para 2017? Sucesso e muito obrigada.

Dani – Eu espero que a gente possa fazer muitos shows, pelo Brasil afora e pelo exterior também, todos nós estamos muito ansiosos pra cair na estrada de novo. Espero que todos gostem do novo álbum e do novo videoclipe, que já está disponível.

Um grande abraço e muito obrigada pelo apoio!

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