“Três anos preparando esse álbum”

Foto: Piedade Araújo.

O primeiro cd não será esquecido, tampouco o tempo que levou para ser gerado. Diante disso conversamos com Cleuber Toskko sobre o primeiro full da banda Rastro de Ódio. E não preciso que ‘ódio’ é o tema principal. Mas não apenas no apenas no âmbito do sentimento, mas do que vem acontecendo no país, ao nosso redor. De uma forma bem clara, falamos desse novo play, de política e inspirações. Acompanhe!

Por Pei Fon (peifang@rockmeeting.net)

 

Olá pessoal. Segue a entrevista e só peço que se sintam à vontade e não meçam as palavras.

Cleuber Toskko: Eu agradeço novamente a oportunidade de estar nas páginas dessa grande revista.

Cinco anos na ativa e história para contar. Como se sentem em lançar seu primeiro álbum?

Depois de muita luta, alívio. Foram quase três anos preparando esse álbum.

Apresente para nós “Escravos Modernos”.

Escravos Modernos é um disco muito mais agressivo do que os nossos dois CD-EP’s anteriores. Acredito que chegamos na fórmula que queríamos. Esse álbum, além de ter uma sonoridade muito mais brutal, voltado para o Death Metal, mesclando com a sujeira Punk que já fazíamos anteriormente, é também um disco um pouco mais técnico. Fizemos doze músicas com a alma e é esse registro que importa, músicas verdadeiras com letras fortes que fazem o ouvinte refletir sobre o mundo atual que estamos fadados. Desde o último CD-EP ‘‘Bem -Vindos Ao Brasil’’ de 2014, a banda passou por várias mudanças na formação e consequentemente na pegada sonora, mas vejo como algo natural e até importante,  porque hoje temos integrantes que realmente gostam e se dedicam ao propósito do Rastros De Ódio. A gravação levou seis meses e o resultado ficou excelente. Foi cansativo para nós as mudanças de integrantes, mas deu tudo certo. Outro processo que foi muito cansativo foi a criação dos metrônomos, eu e o Marconate (batera) sofremos por três meses com isso (risos), além de ensaiarmos três vezes por semana no estúdio e mais uma ou duas vezes na minha casa mexendo nos metrônomos e depois indo para o estúdio fazer a pré-produção. Durante a semana, sempre a noite, e finais de semanas, o dia inteiro, nossas vidas foram tomadas por esse disco, por quase três anos. Foi uma felicidade enorme e também um grande alívio o disco ter sido lançado. Esse álbum representa muito mais que apenas um disco. Já o conceito visual, capa e encarte, eu já tinha desenvolvido há muito tempo, antes mesmo das gravações. A capa, por exemplo, já estava pronta a uns dois anos atrás. Ela resume tudo que se passa nas músicas contidas nesse disco.

Imagino que exista um personagem em “Escravos Modernos”, quem seria? Fala um pouco.

Escravos Modernos somos nós. O personagem, ou os personagens, somos nós mesmos. A escravidão não acabou ela apenas se modernizou. Continuamos acorrentados, continuamos recebendo chibatadas, ainda somos obedientes aos nossos ‘‘senhores de engenho’’, ainda somos leiloados em grandes feiras. Se você não é um escravo competente você é descartado pelo mercado de trabalho, então ‘‘leiloam’’ outra pessoa. As correntes hoje não são mais argolas de aço, e sim cartões de crédito, carteira de motorista, de trabalho, CPF, RG. As pessoas vivem uma falsa felicidade, estão sempre apressadas para o trabalho, calculando cada segundo. Somos simples marionetes mercantis. A diferença do escravo antigo para o moderno é que, hoje você é quem escolhe quem deverá servir. Os governos tentam amedrontar as pessoas com o tal ‘‘desemprego’’, mas na minha visão, o desemprego não existe, ele é apenas mais uma ferramenta assustadora do capitalismo para fazer você agradecer pelo trabalho escravizado que tem. Hoje estamos comprando e pagando a credito nossas vidas miseráveis. Até a forma de pensarmos e vivermos em sociedade foi industrializada, o individualismo é muito maior hoje que anteriormente. A ordem mundial é: Individualismo. As grandes companhias trabalham para isso. Note que hoje as pessoas estão conectadas umas às outras, através das redes sociais, porém, nunca se houve uma geração tão individualista e isolada como esta. É como se o governo mundial tivesse clonado nosso DNA e criado uma geração de escravos que não pensam, não reagem, apenas trabalham, consomem e engolem tudo que é fabricado. Antigamente na Roma os imperadores compravam a submissão das pessoas através de pão e jogos, hoje as pessoas são compradas com tecnologias. Aparelhos de telefone, Tv’s, etc. Uma nação escrava e alienada, que tem uma falsa abundância, que acredita ter a opção de escolha.

A faixa título do play é marcante. Têm palavras que, acredito, resume bastante o álbum. Alienação, resignação, obedecer, respeitar, ilusão. A história do Brasil tem sido bem dessa forma, não é?

Sim essa faixa tem a letra mais condensada e direta. Ela sintetiza todas as outras letras do álbum. É um prólogo do que o ouvinte vai escutar no decorrer do disco. Por isso é a primeira faixa. E não falamos apenas da atual história do nosso país e sim da história do mundo hoje. O mundo está em estado de óbito. A política mundial está em uma nova fase que muitos acreditam ser um colapso financeiro, porém esse ‘‘colapso’’ é algo muito bem arquitetado e planejado, não é algo inesperado como eles querem que acreditamos. Os grandes poderes mundiais estão jogando com nossas vidas, e no momento, eles estão numa nova fase, virando a mesa, fazendo grandes mudanças políticas, climáticas e territoriais. É o jogo do capitalismo e quem sofre com isso são as pessoas de países menos favorecidos, onde terão seus governos tomados, suas culturas destruídas, sua educação minguada, suas rendas reduzidas para logo depois implorarem por emprego. Assim formando novos escravos modernos. Veja a nossa própria situação política, totalmente instável, assim como a situação da Palestina, da Síria, dos países do sul da África, da América Latina em geral, da atual França, Grécia, etc. É um grande jogo de xadrez jogado pelos poderosos do mundo.

As letras são diretas, sem rodeios, como deve ser. Diante disso, a mensagem está chegando onde pretendem?

Esperamos que sim. A música sempre teve um forte potencial de influenciar, comover e mover gerações. Esperamos que as pessoas possam ler nossas letras e refleti-las, e não apenas bater cabeça com nosso som. A música é uma forma da nossa banda lutar, essa é nossa bandeira e muitas pessoas compreendem e apoiam o que fazemos.

São 12 faixas, porém trilíngue. Por que ter letras em português, inglês e espanhol?

Nesse disco temos uma música em espanhol e outra em inglês, justamente para que nossas ideias possam ser compreendidas por outras culturas e idiomas, que não compreendem nossa língua. Com isso participamos em duas coletâneas chilena e tivemos nossos dois CD-EP’s relançados nos EUA. Não fazemos isso para conseguirmos lançar algo no exterior, se quisemos lançar algo lá fora poderíamos estar fazendo isso independente de nossas mensagens, pois hoje o intercâmbio é muito mais fácil que há vinte anos atrás. Mas fazemos músicas em ambos idiomas para que as mensagens cheguem até eles e não apenas o som. Quero continuar gravando em outros idiomas nos próximos álbuns, quero gravar músicas em Tailandês, em japonês, em Árabe, etc. É um esforço que vale a pena para mim.

Passeando pela discografia, o ‘ódio’ ao que tem acontecido no Brasil está presente. O que vocês pensam a respeito da atual situação política?

Não tem como estar feliz pelo que está acontecendo aqui. O Brasil nunca foi um país estável, onde a população pudesse gozar de uma vida controlada e tranquila. O Brasil é um ‘‘puta’’ país lindo, o que ‘‘fode’’ isso aqui são esses corruptos, esses políticos que só pensam em seus próprios benefícios. Esses merdas recebem um dos maiores salários do mundo e ainda assim nos roubam. Não podemos ficar em casa assistindo a tudo calado, temos que continuar indo para as ruas e lutar por nossas vidas e por nossas gerações futuras.

Enquanto músicos, formadores de opinião, vocês costumam se posicionar sobre os assuntos da atualidade ou não querem expôr?

Acho que nossas letras já são uma forma direta de expor sobre o que pensamos sobre o Brasil e o mundo. Não somos partidários e nem nacionalistas. Lutamos por um mundo igualitário, onde todas as pessoas possam ter o direto de viver como e onde quiserem. Onde as pessoas possam retirar da terra seu próprio sustento. Estamos todos no mesmo planeta, um planeta frágil, que merece cuidados. Quando todos os recursos minerais acabarem aí sim vamos dar conta que uma nação não tem nada de diferente da outra, que somos apenas seres humanos, sem pátria, sem língua, sem religiões. Estaremos todos em busca de comida e água, e todo o resto será resto.

Top 5. Quais as inspirações da banda? Cite uma banda e fale um pouco sobre.

Influências musicais cada integrante tem a sua. É um misto sonoro. Mas o que realmente nos inspira são as pessoas. Infelizmente, enquanto houver a miséria, a escravidão, e exploração de todas as formas, estaremos inspirados a escrever. Porque nossa música não é feita para se curtir, mas sim para se revoltar e reagir contra essa máquina impiedosa chamada Capitalismo.

Por fim, o que podemos esperar da banda para 2017? Sucesso e muito obrigada!

Continuaremos fazendo nossa parte, levando nossas músicas e ideias para as pessoas. Esperamos poder ter saúde para continuarmos tocando por aí. Em nome de toda a banda eu agradeço o espaço cedido e para quem quiser conhecer nosso trabalho deixo aqui o link do nosso site: www.rastrosdeodio.com.br

 

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