“Trabalhando num álbum acústico”

 

Se um dia alguém te disser “Death Metal acústico”, O que vai pensar? Improvável, não? Soa estranho de certo modo, convenhamos. Mas uma dupla mostra que é possível. Psychotic Eyes faz sim esse som agressivo em algo mais ‘sublime’, para contemplação. Bater cabeça em ‘slow motion’. A parte acústica nasceu de uma adversidade da banda. Quando ainda era um trio, um convite para show surgiu e o baterista saiu. Alguns declinariam. Mas Dimitri e Douglas aceitaram o desafio e apresentaram um som extremo sem as batidas da bateria. Confira essa entrevista bem legal com o guitarrista da banda.

 Por Pei Fon

Primeiro ato. Por favor, apresentem-se para nossos leitores.

Dimitri Brandi – O Psychotic Eyes foi formado em 1999. Lançamos o álbum de estreia em 2005, e nosso segundo, “I Only Smile Behind the Mask”, em 2011. Atualmente, desde 2015, estamos trabalhando num álbum acústico, agora em fase final de produção. Nosso som já foi rotulado das maneiras mais diversas e imagináveis. O que eu posso dizer, para explicar, é que têm vocais guturais, alguns berros mais rasgados, letras em inglês e agora em português, instrumental bem trabalhado com referências diversas, de todos os estilos de metal e da boa música, aí incluídos jazz, rock, MPB e umas outras maluquices.

O som da banda recebe muitas influências musicais, porém a literatura também está presente. As artes devem conversar entre si. Como tudo surgiu?

Dimitri – Com certeza as artes devem conversar entre si. Escrever uma letra de música não é fazer literatura, mas é quase como escrever um poema. Uma boa letra, aliás, funciona como um poema. Além disso, álbuns vêm em pacotes que têm imagens, capas, panos de fundo. Não há música sem artes plásticas, também. O meu gosto por literatura precede o gosto por música. Eu comecei a ler antes de começar a ouvir música por prazer. Claro, antes eu ouvia música “por osmose”, mas eu virei um aficionado mesmo depois do Rock in Rio, quando assisti ao Iron Maiden pela televisão. Nessa época eu já era viciado em literatura. Quando comecei, muitas décadas depois, a escrever minhas próprias letras para o Psychotic Eyes, foi natural buscar na literatura a inspiração. Primeiro nas histórias de terror. No nosso primeiro álbum estão a do Frankenstein e a do filme “Sinais”. No segundo álbum comecei a contar pequenos contos, como o da faixa título.

O último trabalhado lançado foi “I Only Smile Behind The Mask”. Quem seria esse personagem? Seria uma pessoa que vive duas vidas distintas?

Dimitri – Sim. Todos nós usamos máscaras. No caso da faixa título, imaginei um personagem que teve o rosto desfigurado em um acidente. Ele se culpa por isso, achando que foi imprudente. Como não tem coragem de exibir sua face mutilada, só se sente à vontade, e feliz, quando pode usar uma máscara, quando está fantasiado. Isso acaba sendo uma metáfora, só somos realmente felizes quando podemos ser nós mesmos, só que mostrar nosso verdadeiro eu para os outros exige coragem, pois podemos ser muito feios no fundo. Como medo de mostrar o monstro, colocamos máscaras, disfarces e fingimentos, que nos protegem, mas também nos ocultam.

“Life” realmente é bastante interessante diante da proposta que é falar da vida, fim de relacionamento. Porém, o que ecoa na cabeça é “leave me alone”. Serve para tantos outros sentimentos, não é?

Dimitri – A letra de “Life” fala sobre o amor, mas em seu momento mais doloroso, que é o fim do relacionamento. Isso acaba servindo para todos os sentimentos de perda, dos quais o mais forte é o luto, também tratado em “Dying Grief”, na qual conto a história da morte do meu pai. Idealizar uma pessoa que se foi, seja pela morte ou porque o amor acabou e seguimos separados. Essas são as sensações que nos torturam no processo de aceitar a perda, e que inspiraram as figuras que menciono na letra, tais como as telas vazias, as lágrimas pingando no chão, a progressão de acordes repetitiva.

Antes um trio, hoje uma dupla. Como estão se virando para compor? Sentem algum tipo de dificuldade?

Dimitri – Nada, ficou mais fácil! Eu e o Douglas temos muita facilidade em compor juntos. Eu faço minha linha e ele a dele, e vamos alterando e adaptando cada parte conforme as ideias do outro. No final, se ficou satisfatório para ambos, está aprovado.

Death metal acústico. Como foi isso, gente? Conta pra nós.

Dimitri – Tudo começou quando perdemos nosso baterista, Alexandre Tamarossi, que parou de tocar metal. Ficamos um tempo procurando um substituto e nunca achamos. No meio tempo, houve o lançamento de uma coletânea, organizada pelo grande artista Luiz Carlos “Barata” Chichetto. Não poderíamos tocar no evento de lançamento sem um baterista, então tivemos a ideia maluca de apresentar nossas músicas no formato acústico, só com dois violões. No dia ficamos apavorados. Mas deu tudo certo, o público adorou e esse foi o nosso show de melhor repercussão até hoje. Você pode conferir no Youtube, o vídeo ficou bem legal!

Ainda sobre o acústico, vocês pretendem seguir na mesma linha? Devem inserir a bateria em algum momento ou esse é um caminho inovador para o estilo?

Dimitri – Não tenho a menor ideia. Como músico de death metal, eu gosto mesmo é de barulho, então adoraria voltar a tocar com uma banda completa. Mas não nego que o formato acústico é inovador e surpreendente. Estamos criando um novo estilo, algo que nunca foi feito antes. Isso é importante e me deixa muito empolgado.

Sobre composição, como está o processo do novo play? O que pode nos adiantar?

Dimitri – No disco acústico temos duas músicas inéditas e regravações de obras antigas. As inéditas têm letra em português, outra novidade pra mim. Nunca consegui compor na nossa língua. Para tanto contei, de novo, com o Barata e a literatura, pois ele cedeu dois poemas geniais para que usássemos como letra. O instrumental está muito mais trabalhado e emotivo do que o normal. As melodias se entrecruzam e se completam. Colocamos linhas melódicas mais bonitas do que agressivas, desta vez, aproveitando a sonoridade dos violões, da guitarra limpa e dos pianos.

Alguns poderiam torcer o nariz para a MPB. Por que descontruir uma música de Chico Buarque? O que a Música Popular Brasileira tem a ensinar para o Heavy Metal?

Dimitri – Primeiro, a escrever boas letras, que tratem da vida humana em todos os seus aspectos. Isso é algo negligenciado por muitas bandas de rock e metal, no Brasil e no mundo. Embora tenhamos excelentes letristas no rock e no metal, também temos muitas letras simplórias ou que simplesmente não acrescentam nada à vida de ninguém. Outra contribuição importante da MPB é a versatilidade harmônica. Os compositores e arranjadores conseguem trabalhar em várias tonalidades, às vezes na mesma música, modulando e mudando a harmonia. Isso é algo que os músicos de metal muitas vezes não exploram, até por desconhecimento. Algumas bandas compõem sempre nos mesmos tons e acordes, e é possível fazer coisas muito pesadas em cima de harmonias inusitadas e diferentes, inspiradas no jazz ou na bossa nova (que é uma harmonia de jazz tocada num violão de nylon, na maioria das vezes).

Top 5. Quais as bandas que inspiram o Psychotic Eyes? Fale um pouco sobre cada uma.

Dimitri – DEATH: a maior influência de todas. O que vou dizer agora eu já disse umas mil vezes e não canso de repetir: Chuck Schuldiner foi o maior músico do século XX, e só não é reconhecido como tal porque tocava metal extremo. Ninguém antes dele criou harmonias, melodias e estruturas rítmicas tão complexas, mas que soam, ao mesmo tempo, naturais, emotivas, melódicas, pesadas, agressivas e épicas. Ninguém. Só tem precedentes na música clássica, nos grandes compositores e arranjadores. No rock, talvez nos trabalhos dos Beatles, mas eles eram uma equipe com um gênio chamado George Martin como produtor. Chuck era só ele.

SLAYER: eu e o Douglas tocamos juntos no Slaytanic. Ele foi o fundador, eu fiquei uns meses. Mas compartilhamos a inspiração na banda que tem o melhor baterista de metal de todos os tempos, que soube expandir os limites do estilo, levar a agressividade às últimas consequências. Influência eterna, música do mal para bons corações. Quem não se arrepia com a introdução de Rainning Blood?

RUSH: a maior banda de todos os tempos. Um trio perfeito. O melhor letrista que o rock já produziu, que por coincidência é o melhor baterista também. Um guitarrista genial e um baixista extraordinário que canta com uma voz que ninguém gosta. Não tenho palavras pra elogiar esses caras. Além disso, nunca lançaram um disco ruim. O pior momento do Rush coloca no bolso a discografia inteira de muita gente…

MOTÖRHEAD: Lemmy é inspiração pra vida. Esse cara era o símbolo do metal. Música pesada, sem meias palavras, sem jamais trair o estilo, sempre inovando. Faz muita falta e é insubstituível.

QUEEN: Não é uma banda de metal, mas é um exemplo de música da mais alta qualidade, com arranjos primorosos e o melhor cantor de rock de todos os tempos. Os solos harmonizados do Brian May são uma eterna inspiração para mim como guitarrista. Também tocaram no Rock in Rio e marcaram os corações de uma geração. Depois disso ainda teve a tragédia do Freddie com a AIDS, aquele show emocionante em sua homenagem com a participação do Tony Iommi. Eles merecem nossa eterna admiração, no mínimo pela coragem que sempre tiveram em fazer boa música…. sem se prender a nada, explorando todas as sonoridades que estavam ao alcance. De novo, quem não se arrepia com “Show must go on”?

Por fim, o que podemos esperar do Psychotic Eyes para 2017? Sucesso e muito obrigada!

Dimitri – Neste ano lançaremos “Olhos Vermelhos”, primeiro disco de death metal acústico da história. Letras em português e capa da genial artista Nua Estrela. Espero que o álbum tenha a melhor repercussão possível, pois estamos inaugurando um novo estilo. Quem sabe ele nos permita realizar o sonho de fazer uma turnê pelo Brasil, tocar em grandes eventos, conhecer os headbangers de todo nosso país. Eu que te agradeço pelo espaço, pela entrevista e pelo trabalho em prol da música underground!

Mais Informações:

www.psychoticeyes.com
www.twitter.com/psychoticeyes
www.facebook.com/psychoticeyes
www.youtube.com/psychoticeyesbrazil

Leave a Comment