Contra tudo e contra todos

ONE TRUE REASON –  Contra Tudo E Contra Todos

Com 15 anos de carreira, o quinteto do One True Reason lança seu terceiro álbum intitulado, Defiance, pelo selo Artico Music. Disponível nas principais plataformas digitais, o álbum conta com 10 faixas de puro Hard Core. Batemos um papo com o baixista, Guilherme Silveira e o vocalista Diego Gringo, que contaram sobre o novo trabalho, “musicalmente, o Defiance foi concebido durante os ensaios e ele é uma mistura das influências dos cinco membros. Na questão das letras, a inspiração foi os tempos sombrios em que estamos vivendo e como é importante não se calar ou ser conivente com a situação. Se no “The Art Of Survival” a gente falava sobre resistir e sobreviver, no Defiance agora falamos sobre partir pro ataque. Sobre revidar, tomar postura mais agressiva contra toda a loucura que está tomando conta do mundo”, contam.

Por Samantha Feehily | Fotos Pedro Henrique

 

A gente tá vivendo num mundo de merda, cheio de preconceitos, galera brigando por político A, B ou C, cheio de intolerância, como vocês enxergam isso e o que o Defiance representa no meio disso?

A política sempre foi polarizada no Brasil, e agora na era da internet isso só piorou. As pessoas preferem tomar partido de A ou B a de fato entender o plano de governo dos candidatos. Fato é que ali não tem nenhum salvador. Estão todos jogando o jogo da política e dos interesses daqueles que financiam as campanhas, fazendo o povo acreditar que têm alguma escolha.
Porém a briga é válida, especialmente, quando se trata de não deixar candidatos com discursos de ódio chegar ao poder. Não há espaço para machismo, racismo, xenofobia e intolerância.

De todas as músicas do Defiance, qual a que mais representa o momento em que vivemos?
A gente escreve e canta sobre o que nos cerca, a nossa área de atuação ou de influência, várias músicas do disco poderiam estar nessa resposta, mas infelizmente a música que mais representa o momento é a “In This Hell”. Essa música conta com a participação do Andrew Neufeld, vocalista da banda canadense Comeback Kid e refrão da música diz:
“O ódio está tomando o melhor de nós. Esperanças perdidas, sonhos falsos.
Tudo que vejo é empatia por ninguém, preconceitos contra todos.
Equívocos enraizados aprisionando sua mente.”

Guilherme passou dois anos fora do Brasil e mesmo assim a banda não parou, “morei em Toronto por 2 anos e antes de ir nos reunimos e planejamos o possível.
A banda seguiria o ritmo normal de atividades, arrumamos um baixista temporário para os shows que fossem rolar, mas de forma geral o objetivo era começar a programar e compor o que viria a ser o Defiance. Na banda, somos todos muito participativos e com voz ativa e mesmo à distância, participei o máximo que pude da composição, mas só foi possível entender tudo quando voltei do Canadá. Retomamos os ensaios com os 5 integrantes, finalizamos algumas músicas juntos e os retoques finais dos sons que já haviam sido feitos. No fim das contas acabou funcionando bem para todos nós. O One True Reason sempre foi uma das maiores constantes na minha vida (já são 15 anos) e embora eu não tivesse saído da banda ou parado de tocar baixo, fazer isso de lá não é a mesma coisa. O bacana é que nos falávamos todos os dias, seja para discutir uma ideia, uma música, merchandising, show, etc. Foi basicamente uma questão de se adaptar a não estar presente fisicamente.

Como está sendo a aceitação do público com o Defiance?

Melhor do que eu esperava. Primeiro porque a forma como as pessoas consomem música mudou, hoje em dia é bem diferente. Existe o streaming, a internet e a quase infinita acessibilidade às informações na ponta dos dedos o dia todo. O que faz com que as coisas acabem se tornando efêmeras, é a lógica do feed infinito. Você ouve uma música, curte uma foto, compartilha uma notícia e no fim acaba não retendo nenhuma informação ou sentimento referente a tudo aquilo. Achei que isso poderia influenciar e acontecer com o disco novo, mas foi diferente. Apesar do disco ainda ser considerado novo, teve um impacto positivo para a banda e o momento que vivemos nela. Abriu várias portas, reaproximou pessoas e também chegou em muita gente nova. Sem contar as possibilidades que vão surgindo de tour no Brasil e até mesmo fora. Então me parece que a receptividade ao Defiance foi bem positiva.

O que mudou entre o The Art Of Survival e o Defiance?

Embora a banda tenha uma identidade sonora, acreditamos que precisa existir uma evolução mesmo que mínima. Entre os dois discos com certeza nós mudamos ou evoluímos como pessoas e isso acaba refletindo na banda também. Os dois discos tem conceitos que representam bem a época que forem feitos. No The Art Of Survival a banda estava passando por algumas mudanças na formação, baterista novo, o Diego tinha acabado de assumir o vocal e eu estava me preparando para sair do Brasil. Era um momento diferente e o disco reflete isso. No Defiance também houveram mudanças mas menos drásticas. Voltamos a ter 5 integrantes na banda e pudemos gravar o disco com dois guitarristas. Estamos mais maduros musicalmente e todo mundo tem seu papel bem estabelecido. Eu particularmente gosto dos dois discos, e acredito que eles têm muito em comum. A essência é a mesma, energia, mensagem e agressividade.

Precisamos falar da evolução do Gringo, como foi acompanhar de perto essa transição da batera pro vocal?

Antes de cantar no One True Reason ele foi o baterista da banda e gravou nosso primeiro disco ‘Confessions’ (2007) e o split ‘Kings Can Fall’ com os franceses do Providence (2011). Sendo bem franco, trocar de instrumento não é algo simples e ele fez isso em um momento que a banda realmente precisou. O Diego assumiu a responsabilidade de ser o vocalista e fez isso em todos os sentidos, escreve bem, canta bem, é envolvido em tudo que se refere a banda e além disso tudo é um dos meus melhores amigos. Não consigo ver ele fazendo outra coisa além de cantar, embora um ensaio ou outro ele senta na bateria para matar a saudade.

Qual foi a sensação de gravar o clipe da Reprisal no Ouvidor 63?

De responsabilidade. Queremos levar a mensagem daquelas pessoas da forma mais genuína e verdadeira possível. Representar a importância que iniciativas como a do Ouvidor têm para sociedade, seja cultural, artística ou pessoal é algo muito foda e o resultado é bem fiel a isso, não poderíamos estar mais orgulhosos.

Podemos esperar um cd em português?

Quem sabe?! Um CD completo eu não diria, mas uma música ou outra com certeza.
Cantar em inglês nunca fui uma obrigação para nós, somente uma parada mais confortável.
De repente tá na hora de sair da zona de conforto e começarmos a espalhar nossa mensagem na nossa língua.

Como vocês enxergam a cena de hoje em dia?

Essa pergunta é delicada. Costumo conversar com vários amigos sobre isso e o consenso é que a cena hardcore é cíclica (ao menos na nossa visão que faz um tipo de som mais pesado) e vive momentos diferentes de público, existência de bandas, quantidade de shows, engajamento social, etc. Embora nada disso tenha deixado de existir hoje em dia, para variar, as coisas são diferentes. Existem mais facilidades para se criar uma banda, marcar shows, tours. E em contrapartida há dificuldades que resvalam na sobrevivência do gênero, por exemplo, as mensagens e a participação das pessoas, seja apoiando ou entendendo aos por quês do dia a dia. Vivemos uma época em que interagir, participar e comunicar são mais importantes do que julgar e virar a cara. O hardcore está vivo, mas precisa ser mais vivido e menos observado através de telas de computador ou de celular.

E para finalizar, deixa um recado pra galera e o que esperar do OTR daqui pra frente.

Primeiro quero agradecer você e a Rock Meeting pelo tempo e interesse em conversar conosco, e também a todos que de alguma forma apoiam o hardcore. O One True Reason como o nome diz, é a nossa verdadeira razão, nosso propósito é poder dar algo para que as pessoas vivam melhor, seja através da mensagem nas letras ou da energia contida na música.  Vá aos shows, gaste energia no que te faz bem e tenha mais empatia pelos outros.
Cada um tem a sua luta, não seja babaca e espalhe mais positividade.

 

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