“Estamos muito ativos”

Foto: Leo Cruz

Na edição de março, tivemos um especial sobre bandas com mulheres que, caso você ainda não tenha lido, super sugerimos a leitura. Lá temos dezenas de bandas com links e perfis pra você passar um bom tempo conhecendo novos sons.

Lá você encontrará o Manger Cadavre? que permeia o underground nacional desde 2011 e então decidimos estender a conversa e fazer uma entrevista com a vocalista Nata de Lima.

Em setembro a banda se apresentará no festival Setembro Negro e além disso tem alguns shows no Nordeste já agendados. Após mudanças estruturais, com a saída de dois integrantes, atualmente a banda conta com Nata de Lima nos vocais, Jonas Godói no baixo, Marcelo Augusto na guitarra e Marcelo Kruszynski na bateria.

Quer conhecer mais sobre a história da banda? Veja esse vídeo aqui. Acompanhe a banda no Facebook:

E agora confira abaixo nosso bate papo.

Por Edi Fortini | Fotos Leo Cruz

Olá, Nata, tudo bom? Conta pra gente um pouquinho de como é ser uma banda politizada no meio do cenário. As pessoas procuram vocês por essas questões? Como é essa experiência?

Nata de Lima – Oi! Tudo sim! Obrigada pelo espaço. Bom, ter uma consciência política à extrema esquerda e levá-la à frente em nossas letras e mensagens no palco é algo que já nos fechou algumas portas, assim como, sistematicamente, nos faz perder dezenas de “fãs de facebook” (que é uma galera que está nessa só pelo barulho) a cada publicação posicionada que fazemos. A realidade é que a gente não se importa em não ser aceito por esse tipo de gente, no entanto, nós temos a plena noção que o metal, o hardcore e (pasme) o punk, não são meios totalmente politizados. Há uma molecada que está em busca de identidade e vão reproduzir aquilo que chega mais facilmente a eles. Se a gente aponta, julga, pune, exclui e não oferece uma alternativa a quem está abraçando esse discurso pela ignorância, quem está fazendo um trabalho ideológico muito bem feito, é a direita ultra-conservadora (vide a quantidade de bolsominions no underground). Nós temos que colaborar para a consciência de classe pela base, que atualmente é essa molecada que não viveu os anos 90, não sabe como foi a época em que a direita entreguista governou nosso país, muito menos sabe como foram os anos 80. Algumas pessoas nos procuram para entender certas questões (principalmente ligadas às pautas progressistas paralelas às de classe), no entanto, eventualmente, nós mesmos trocamos ideia com alguns que identificamos que gostam do nosso som, mas compactuam com a reprodução de falas que são contrárias a aquilo que acreditamos. Boa parte das vezes deu certo, e hoje essa galera se envergonha do que já disse.

Recentemente foi divulgado o lineup do festival Setembro Negro, que acontecerá em São Paulo. Vocês serão uma das poucas bandas com mulheres no festival. É pouco, mas somos gratos por tê-los. Como surgiu esse convite? O que vocês esperam do fest?

O convite foi uma grande alegria para nós, pois quando a Tumba Produções nos procurou, foi uma surpresa, pois esse é um festival essencialmente de metal. A princípio sabíamos que tocaríamos no mesmo dia do Wolfbrigade e o At the Gates, bandas que são influência de todos da banda. À medida que foram se confirmando mais bandas para o fest, a organização nos comunicou e nos deu a possibilidade de aceitar ou não. Sempre foram transparentes e muito profissionais, nesse aspecto. Conversamos entre nós e com pessoas que respeitamos no meio e aceitamos o convite.

Sobre a questão da representatividade feminina, sim, somos uma das poucas, no entanto a presença das mulheres está se ampliando e se fortalecendo, o que é muito bom. Acredito que ainda é uma luta que vai longe, mas as mulheres estão conquistando seu espaço a partir do apoio mútuo, enfrentando o preconceito e conquistando público pela sua qualidade. Apesar de alguns festivais ainda precisarem ser cobrados pela inclusão de bandas com mulheres, no caso do Setembro Negro, isso partiu diretamente deles, tendo como critério de seleção, a qualidade das bandas.

Nós tocaremos no domingo, estamos um pouco apreensivos, pois esse será o primeiro grande festival que participaremos e esperamos fazer um dos nossos melhores shows, além de levar a nossa mensagem. Ansiosos em ver todas as bandas e, com certeza, esperem nos encontrar no mosh.

Como tá a agenda pros próximos meses? Vocês têm muitos shows marcados?

Nós fizemos dois shows no estado do Pará (Belém e Castanhal) agora em abril, seguidos de outros shows aqui em São Paulo, mesmo. Em setembro faremos uma mini tour pelo Nordeste, que será a realização de mais um sonho da nossa banda. Felizmente estamos muito ativos e com shows muito bacanas na agenda.

E você também faz parte da divulgação do coletivo União das Mulheres do Underground, conta pra gente como ele surgiu e como funciona?

 Há um ano, vi uma publicação de uma brasileira que mora nos EUA perguntando sobre bandas com mulheres na formação. Curiosamente, nós fomos uma das poucas bandas nacionais citadas, sendo que haviam comentários de inúmeros caras da cena paulista, que só mencionaram bandas estrangeiras. Fiquei pensando que existem tantas bandas fantásticas em todos os subgêneros do rock em geral e sobre o por que elas não foram citadas. Eu estava em busca de algo positivo que eu pudesse somar. Nisso, convidei amigas de várias estados brasileiros para conversar sobre a ideia. Elas toparam fazer a página e convidaram outras amigas. Assim, de forma descompromissada, mas com muito entusiasmo, nasceu a UMU. Atualmente são administradoras: Priscila Silva (Fortaleza), Sirlene Farias (São Paulo), Carolina Morais (Belém), Cely Couto (São Carlos), Daniella Moura (DF), Eliane Matos (Ilhéus), Aline Braga (São João del-Rei), Geraldine Almeida (Rio de Janeiro), Ali Moraes (Mossoró), Thaís Tabelião (Pelotas), Nanda (Fortaleza) e Danielle Nunes (Santa Isabel). Para saber mais, clique aqui.

Ainda falando do coletivo, gostaria que sugerisse algumas bandas que fazem parte dele, pra divulgarmos aqui pra galera conhecer.

 Todas as bandas que possuem mulheres são divulgadas. Não existem bandas que façam parte do coletivo, pois todas fazem. É muito difícil indicar algumas, pois já publicamos mais de 400 bandas. Deixo o convite para a galera visitar a nossa página e conferir o quanto de material foda foi e está sendo produzido por mulheres.

Foto: Leo Cruz

Após alguns EP’s e singles, vocês estão trabalhando no primeiro álbum agora. Como está esse processo? Quando será lançado?

 Nós pretendemos fazer menos shows no segundo semestre para podermos focar no processo de criação. Há algumas músicas, mas que precisam ser melhor trabalhadas e muito bem ensaiadas. Nós iremos gravar ao vivo novamente e para isso, é preciso que as músicas estejam bem redondas. A previsão de gravação é em 2019, então, o lançamento será feito, provavelmente, no segundo semestre.

Vemos que fora do Brasil, essa questão das bandas mais politizadas é bem levada a sério e atualmente vimos vários casos de denúncia de apologia ao nazismo e outras merdas dentro metal e hardcore. Como você enxerga isso no cenário nacional? Você acredita que as pessoas estão mais acordadas pra realidade que nos cerca?

 É difícil falar por um país de dimensões continentais como o Brasil. Mas nas nossas viagens, vemos que o meio em que estamos inseridos é muito preocupado com isso. Por sermos uma banda de hardcore, conseguimos transitar dentre os meios metal e punk e em ambos os meios, felizmente, a galera está mais aberta a discussões políticas e análises de conjuntura. Voltamos a viver uma época em que o subemprego e o desemprego está nos assolando e, por isso, acredito que esse despertar da consciência esteja renascendo. Não sei dizer se estou em uma bolha, mas acredito que esteja rolando uma renovação e, novamente, é de suma importância que a gente trabalhe para levar essa consciência para os mais novos. Do contrário, as bandas de hardcore “machão” e as de metal conservador estão aí de braços abertos acolhendo essa galera e cooptando para os ideais de extrema direita.

Mais algum recado pro nosso público? Querem dizer algo a mais?

Obrigada pelo espaço! O nosso recado é sempre o mesmo: faça o que puder, mas faça. Não seja aquele que só aponta o dedo e não faz nada para mudar. A crítica é importante, sobretudo a autocrítica. Dessa forma, some da forma que puder. Aja. Saia do discurso na sua bolha do facebook. Vá para o mundo real. Fale com pessoas de verdade. Organize eventos. Escreva zines. Toque em todos os lugares possíveis. Apoie quem corre. Por mais que pareça insignificante, toda mudança, toda ação é efetiva.

Obrigada pelas palavras! Nos vemos em breve. =D

 

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