A velha e a nova escola

Que o Brasil é um celeiro de música, seja ela qual for, isso ninguém duvida. É muito bom poder ter a oportunidade de conhecer novas bandas que podem despontar no cenário rock/heavy brasileiro. Nesse momento falo do Inherence, banda de São Paulo, formada por Thiago Castor (voz), Marcelo Liam (Guitarra), B2 (baixo) e João Limeira (bateria). Com uma pegada que mexeu com minhas lembranças, eles me fizeram lembrar os motivos pelos quais comecei a ouvir metal. Soa moderno outrora nostálgico, mas é forte, visceral, matador. Se não tem frescura para ouvir, essa é a minha aposta. Tive uma conversa super legal com Marcelo e Thiago, acompanhe!

Por Pei Fon | Fotos – Jow Head

Como é o nosso primeiro contato, por favor, apresentem-se para os nossos  leitores.

Marcelo Liam – Somos o Inherence de São Paulo. A banda começou com João Limeira (bateria) e Marcelo Liam (guitarra), em 2016. Em seguida, Thiago “Castor” (vocais) entrou na banda e alguns meses depois, por convite do Castor, Rafael B2 (baixo) fechou o time. Começamos a fazer shows em 2017 e através da Onerpm lançamos nosso primeiro single “When Death Means Life” em diversas plataformas digitais como Spotify e Deezer. Em 2018, finalmente lançamos nosso début chamado “Dogma”. Nossa proposta é tocar um som pesado que ao mesmo tempo é groovado, rápido e quebrado, juntando a velha e a nova escola. Nossas influências são variadas: Cannibal Corpse, Meshuggah, Hatebreed, Krisiun, Slayer, Napalm Death, Aborted, First Blood, Whitechapel, The Acacia Strain e por aí vai.

Por trás do nome de cada banda existe um significado. O que seria e como surgiu o nome Inherence?

Marcelo – O nome Inherence surgiu quando o João (bateria) mostrou uma banda pro Marcelo (guitarra) chamada Malevolence. O Marcelo curtiu o som da banda e também a forma como o nome soava e dias depois sugeriu o nome Inherence. O João curtiu a ideia e o nome ficou. Inherence em português significa Inerência que é o estado de coisas que são naturalmente inseparáveis. O nome tem a intenção de mostrar que, a música que fazemos é inerente a nós, ou seja, naturalmente inseparável de nós mesmos.

O som da banda me fez lembrar os tempos em que começara a ouvir Metal. Lembrou-me bastante do antigo Sinai Beach. Fora isso, como é unir diferentes variantes, mais bagagens, para chegar numa ‘ordem’ comum?

Marcelo – Quando a banda começou, a proposta inicial era combinar elementos do metal com hardcore. Logo após a entrada do Castor (vocal) e do B2 (baixista) mais elementos foram acrescentados fazendo com que o processo rolasse de uma forma bastante natural. Hoje misturamos o metal e o hardcore a nossa maneira.

2018 vocês já iniciam jogando o seu début na praça. Conta para nós como foi o processo de gravação do “Dogma”.

Marcelo – Nós começamos a compor o “Dogma” em 2016, e algumas músicas já estavam parcialmente feitas antes da entrada do Castor (vocal) e do B2 (baixo). Com a entrada deles e o entrosamento da banda, as composições foram tomando um rumo mais sólido. O processo de composição, na maioria das vezes, parte de riffs de guitarra que o Marcelo cria e logo após isso todo o instrumental é feito, tendo a participação de todos. Quando a música fica pronta, o Castor escreve a letra e encaixa as linhas de voz. Algumas músicas tiveram de ser modificadas e deram mais trabalho para serem finalizadas, mas isso é natural em qualquer banda. Começamos a gravar no início de 2017 no estúdio Dual Noise com Rogério Wecko em São Paulo. Fizemos tudo com bastante calma e seguimos o método padrão gravando as guias de guitarra junto do metrônomo, logo em seguida foram gravadas as linhas de bateria, as guitarras finais, as linhas de voz e por último o baixo, solos e arranjos. O álbum foi mixado e masterizado pelo Rogério Wecko e ficamos muito contentes com o trabalho dele, superou nossas expectativas.

O que vocês já colhem desse début? Qual o feedback que estão tendo?

Thiago ‘Castor’ – O “Dogma” foi lançado primeiro nas plataformas digitais e a partir daí as coisas começaram a ficar muito loucas. O autraliano Peter Worrall, dono do selo 10-54, que divulga diversas bandas de HC e metal na Austrália curtiu muito nosso álbum e assim que a versão física saiu, enviamos algumas cópias pra serem vendidas por lá. O belga Robin Derriks, dono do site Hardcore Gateway, também pediu algumas cópias, que inclusive poucos dias após chegarem na Bélgica, foram todas vendidas. E atualmente vamos gravar duas músicas novas que vão ser lançadas em um Split com uma banda grind do Japão chamada The Kandarivas, que também nos convidou para fechar algumas datas por lá. Fizemos também algumas datas no Rio de Janeiro e em Santa Catarina e até o final do ano queremos tocar o máximo possível aqui dentro do Brasil. Muitos contatos estão surgindo e a gente tá se surpreendendo bastante com o feedback que tem rolado.

Pensando um pouco mais sobre o título do primeiro play, o que esses dogmas têm feito hoje? Qual a ação/atitude que esses dogmas têm sido um problema em nossas vidas?

Castor – A palavra “Dogma” em latim quer dizer a grosso modo “Verdade absoluta”. Acreditamos viver em uma sociedade que atualmente é dogmática em vários setores, não apenas no meio religioso. Pode-se dizer que com o avanço da tecnologia, a mídia se tornou bastante dogmática e a política talvez nos dias de hoje seja o nosso maior exemplo em relação a isso. E graças a todo esse conceito de “verdade absoluta” muitas pessoas não conseguem se relacionar justamente por não tentarem nem ao menos questionar certas coisas que acontecem ou são impostas em suas vidas. E acreditamos que isso é um grande problema nos dias de hoje.

“The Chosen One” é um ótimo cartão de visita. Quem seria esse escolhido?

Castor – A letra fala sobre fanatismo religioso, e em alguns momentos é tratada em primeira pessoa, se passando pelo escolhido, que no caso seria o personagem que engana as pessoas usando a fé e a ignorância como forma de se tornar alguém importante dentro da sociedade. Portanto, respondendo a sua pergunta, “The Chosen One” seria o explorador, que se auto denomina “O Escolhido”.

“Self Trepanation” me chamou atenção pelo nome. Ouvindo o som me fez pensar um pouco. Diante de tantas mudanças, ser verdadeiro consigo mesmo e não permitir que as ‘novas concepções’ do mundo interfira em você é o caminho?

Castor – A letra dessa música faz uma analogia a um procedimento cirúrgico chamada Trepanação e ao fato de você fazer aquilo que acredita sem se importar com o que as pessoas vão pensar ou com pré-julgamentos. Não sei se você já ouviu falar de Bart Hughes, mas ele foi um cara considerado louco por muitos no meio na medicina, pois acreditava que a auto trepanação fazia o ser humano atingir um estado de consciência pleno, tendo praticado inclusive nele mesmo. Não que a gente acredite nisso, mas o fato é que ele fazia o que acreditava e se sentia bem com aquilo. Em relação as “novas concepções”, a letra fala justamente para permitir que elas aconteçam, pois através de novas ideias é que o mundo evolui.

Duas palavras no cd me chamaram atenção: mentiroso e covarde. Pensando muito além, vendo o mundo como está, quem seriam esses personagens hoje? Uma nação? Governante? Pessoas?

Castor – Todos nós em algum momento de nossas vidas, mentimos ou agimos como covardes. São condições humanas e não temos como fugir disso. O problema é quando “ser covarde” ou “ser mentiroso” se torna um hábito, algo constante em nossas vidas. Respondendo a sua pergunta, a sociedade como um todo é mentirosa e covarde. Como dito acima, o que nos resta é trabalhar diariamente pra que essas condições não virem um hábito.

Ouvindo “When live means death” e “When death means life”, quando que a vida significa morte e a morte, vida?

Castor – Não precisamos morrer de fato para estarmos mortos. Você pode apenas existir e estar morto por dentro. A vida pode significar morte quando você perde alguém, quando tudo desmorona ao seu redor, e ao mesmo tempo pode significar vida quando você conquista algo importante, quando você presencia o nascimento de algo ou alguém.

Mudando um pouco da música para assuntos pertinentes do nosso tempo. Muito se  fala do posicionamento extremo de personas do nosso meio. O Rock N Roll (englobando todas as vertentes) sugere ser o que observa tudo, têm sua opinião e não toma partido. Mas não é bem isso que vemos. Vemos muitos ‘desencontros’ e, principalmente, laços desfeitos. Em tese, não era para existir o respeito?

Marcelo – A arte é geralmente uma extensão da sociedade e do tempo em que a mesma se encontra. Isso gera efeitos interessantes e ao mesmo tempo trágicos, e música não fica fora disso. O rock, em sua origem, tinha uma relação mais fidedigna com manifestações e causas sociais, mas isso naquela época. Hoje as coisas são diferentes e esse olhar crítico de espírito vanguardista e inovador caiu, e é natural  que isso aconteça. Precisamos olhar pra frente, pensar no próximo passo, no que podemos mudar como músicos, artistas, apreciadores, ouvintes críticos e pensantes. Ter uma posição radical e intolerante não faz parte do início do rock, é uma parada que rola mais hoje, depois que esse gênero se consolidou e permutou pelas gerações, achamos que esse engessamento precisa ser descontruído novamente.

Analisando um pouco as letras, as palavras verdade, mentira, covarde,  morte e liberdade se fosse para representar bandas que inspiram o Inherence, quais seriam? Explique em poucas palavras sobre cada uma delas.

Castor – Em relação as letras, e especificamente as palavras citadas acima, poderíamos dizer que o Napalm Death representa bem a ideia do que inspira o Inherence liricamente.

Por fim, o que podemos esperar do Inherence para 2018. Sucesso e muito obrigada!

Castor – Primeiramente, gostaríamos de agradecer o espaço,  rolaram perguntas realmente boas, e que mostraram seu total interesse no nosso trabalho. Muito obrigado de verdade. E 2018, a gente pretende tocar no máximo de lugares que a gente conseguir, espalhar nosso trabalho, e torná-lo cada vez maior e melhor. Muito obrigado!

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