Sangue, amor e sofrimento

 

O Imago Mortis está de volta, meu povo. E não poderíamos deixar de falar com eles. Conversei com o Alex Voorhees sobre um bocado de coisa interessante Ah, Charles Soulz deixou a sua pitada também. Cd novo, hiato, histórias, perspectivas. Você amante do Doom, acompanhe essa entrevista.

Por Pei Fon | Fotos Alessandra Tolc

O Imago Mortis acabou de lançar mais um cd na praça, fale um pouco sobre ele.

Voorhees O CD se chama “LSD”. Este título surgiu através da tecladista (na época, 2005) Bárbara Lyrae em uma de nossas muitas conversas a respeito de um novo trabalho.

L.S.D. é uma sigla para “Love, Sex and Death”. Uma alusão à droga e – fazendo referência aos feromônios – substâncias que provocam reações em nosso organismo que denominamos paixão (muitas vezes, confundido com “amor”).

Este trabalho foi forjado com sangue, amor e sofrimento. Musicalmente, estão de volta elementos clássicos do Imago Mortis: o peso e pesar em grau máximo.

É um álbum conceitual e temos dois personagens centrais (um casal), além de um narrador. E temos 12 canções para o ouvinte acompanhar a saga de uma pessoa que começa solteira, busca e encontra uma companhia com quem começa um relacionamento e sofre todos os processos de sexo, paixão, promessas de amor eterno, desentendimento, possessão, ciúmes e que culmina com o inevitável fim. A faixa de abertura funciona como um resumo da ópera onde todos os conceitos propostos no disco são apresentados de uma só vez. A partir da segunda música temos a história em si, que se encerra na filosófica “Epitáfio de um Amor”. “Black Widow” é aquele relacionamento errado para você tentar esquecer o anterior. E amar o que te faz mal, amar a morte. A pulsão de morte freudiana. Love, Sex and Death (Theme) é uma canção que funciona como uma “outro”, com o narrador finalizando o trabalho como uma música de encerramento de um filme, enquanto o mesmo está nos créditos.
Há muito mais o que ser dito mas prefiro que os ouvintes descubram por si!

12 anos para lançar um álbum de inéditas. Entendemos que o tempo é algo que não se explica, mas qual o motivo por levar mais de uma década para gravar um novo cd?

Voorhees:  Para não me alongar demais, vou tentar resumir o que ocorreu conosco durante esses 12 anos. O CD antecessor foi o “Transcendental”, lançado em 2006. Percorremos o país inteiro durante 02 anos para divulgar esse CD, fazendo shows de norte a sul. Foi a nossa turnê mais extensa. Por volta de 2008 a banda deu uma pausa e alguns integrantes acabaram por se desligar da banda por motivos pessoais, inclusive com dois músicos indo morar no exterior. Oportunidades aparecem, você sabe como é. Como a banda já havia sofrido desmanches anteriores, acabei desanimando e a banda veio a encerrar suas atividades em 2009. Em 2010 houve a morte de meu filho, Alexandre Júnior – que adorava a banda. Percebendo que a vida é mesmo muito curtinha e muito, profundamente triste, comecei a escrever, escrever, escrever e desenvolver mais o conceito do disco (iniciado ainda em 2006 mas que estava parado). Também re-montamos a banda para um show especial tocando o Vida na íntegra em 2011, que também foi um tributo a ele.

A banda continuou, fizemos mais shows e começamos – de fato – a trabalhar no conceito. Chegamos a lançar dois singles “demo”, um em 2013 (LSD Theme) e mais tarde, “Black Widow” apenas na internet, para saciar a curiosidade dos fãs e avisar que a banda estava compondo material novo. Por fim, decidimos regravar todas as músicas, incluímos novas mas faltava o principal: dinheiro.

Fizemos um crowdfunding em 2016 mas este não obteve o retorno esperado. Mas conseguimos um acordo com o selo Die Hard (que já havia lançado o Vida, Transcendental) que viabilizou a prensagem.

Gravamos a bateria (em estúdio terceirizado, o HR) e os demais músicos foram gravando suas partes e me mandando. Eu produzi tudo sozinho, em casa – fazendo todas as partes de edição, algumas timbragens, gravei minha voz, cuidei de burocracias, etc… e no final, mixei tudo. Evidente que neste processo recebi muito feedback dos demais músicos (pela internet, devido à distância – eu moro no sul e eles, no RJ) até chegarmos na versão final de todas as músicas.

Por fim, o produtor Michel Marcos, do M&H estúdio, fez a masterização enquanto o brother Alcides Burn cuidou da parte gráfica, contando ainda com um desenho feito a mão pelo amigo Ednum Lopis. Foi um CD que deu mesmo MUITO trabalho, recebendo inclusive o apelido carinhoso de “Chinese Doomocracy” (risos).

 “Love, Sex and Death” sinto muito disso no álbum ‘LSD’. Entorpecido, denso e mortal.  De onde veio a inspiração?

VoorheesVeio quando eu conheci o trabalho de Helen E. Fisher, autora do aclamado livro “Anatomia do Amor” –  no qual ela aborda a questão biológica e fisiológica do amor e paixão.

Com base nas pesquisas de Fisher, também professora de antropologia da Universidade Rutgers, pode-se fazer um quadro com as várias manifestações e fases do amor e suas relações com diferentes substâncias químicas no corpo.

Eu já havia observado esse fenômeno e resolvi mergulhar profundamente no assunto – utilizando também visões de filósofos como Nietzsche e Schopenhauer, que já dissertaram sobre o tema algumas vezes. Notei que havia muito em comum tanto com minhas visões quanto o trabalho dos filósofos e da própria Helen Fisher. Os meus próprios relacionamentos do passado também serviram de combustível para escrever os temas, com bastante conhecimento de causa, por sinal (risos).

Adentrando ainda mais na temática, o que seria mais mortal: o amor ou a paixão?

Voorhees: A paixão, pois a paixão tem prazo de validade enquanto o amor pode durar a vida toda. Se você estiver se referindo a “fatal”, cito a paixão novamente pois pode cegar e causar forte descontrole emocional.

LDS transita em dois idiomas. A faixa “Epitáfio de um amor” é totalmente em português. O que os ouvintes não ‘lusitanos’ compreendem bem quem plantou ‘esta crença de que o amor jamais acaba’?

Voorhees: Acredito que os ouvintes ‘não lusitanos’ vão precisar de um google tradutor para entender alguma coisa dessa faixa (rs). Nossa ideia nunca foi explicar nada com nossa música e sim explorar alguns temas dos quais gostamos.
Escolhemos nossa língua pela sua riqueza poética então acredito que esta música seria uma boa oportunidade de explorá-la. Haverão surpresas e em breve disponibilizaremos essa faixa sem vocal algum para que qualquer um possa recitar o poema em casa, inclusive teremos uma letra em inglês para quem se interessar.

Na descrição bem simplificada do álbum é sobre o mito do amor romântico. Existe algum personagem por trás? O que seria esse mito?

Voorhees: Existe sim um personagem “principal” por trás (citei anteriormente o casal e o narrador), ele está na primeira pessoa mas como eu sou uma pessoa do sexo “masculino” acaba que a mensagem sai sob a minha perspectiva. Mas de fato a mensagem serve para sexos masculinos, femininos, etc…  há mais o que dizer sobre este personagem em si, está implícito nas próprias músicas e isto é um “easter egg” para ouvintes mais atentos.

Quanto ao mito do amor romântico, tomamos como base tanto a ciência atual quanto os filósofos clássicos. Vou citar Schopenhauer: para o filósofo alemão, “o amor é  a manifestação de um desejo inconsciente de perpetuar a espécie”. A ciência ainda foi mais longe: segundo a professora Cindy Hazan (psicóloga e socióloga), da Universidade Cornell de Nova Iorque, “os seres humanos são biologicamente programados para se sentirem apaixonados durante 18 a 30 meses”. Isso é conhecido como o “ciclo feromônico da paixão” e ocorre inclusive em animais.

Ouvindo o ‘LSD’ é possível identificar que ele foi facilmente influenciado por muitos estilos musicais. Durante a composição já sabem que haverá essa variedade sonora ou tudo acontece naturalmente?

Charles Soulz: Acontece naturalmente pois na banda ouvimos de tudo (principalmente o Alex e eu, acredito). Então, com o subconsciente lotado de informações musicais, quando nos damos conta o doom já está na companhia de vários outros estilos.

Voorhees: Somos uma banda basicamente de doom-metal com fortes influências do metal tradicional oitentista. Mas na hora de compor, a gente não se limita e sempre deixamos a música fluir, sem amarras. É um processo intuitivo e natural, sem pressões quanto à convenções do que está em voga ou a pressão da expectativa de nossos fãs. O mais legal é isso, os nossos fãs entendem que a mola propulsora da banda é realmente essa liberdade artística. Porém quando você está escrevendo sob a égide do Imago Mortis, a marca da banda acaba sempre sobressaindo. Somos uma banda única!

A filosofia permeia bastante a inspiração temática do Imago Mortis. Fazendo uma alusão básica sobre o mito da Caverna de Platão, em que momento da história da banda poderia exemplificar?

Voorhees: Na faixa de abertura, “The LSD Theorem”, na “Epitáfio de um Amor” e na faixa de encerramento, principalmente: “Love, Sex and Death (Theme)”. Interessante você notar essa conexão. Dizemos que o verdadeiro amor é algo bem diferente da paixão (mas que a maioria das pessoas acabam por confundir). O amor (Ágape) é algo próximo da caridade, do altruísmo e é desapegado e duradouro enquanto a paixão é possessiva (e temporária). A morte (Thanatos) vem para aniquilar tudo, amor, paixão (Eros)… A tríade do amor, sexo e morte é que nos dá o verdadeiro sentido da vida.  Portanto, compreender isso é sair da escuridão da caverna e conhecer a luz da verdade!

LDS é um disco denso, difícil de compreender na primeira ouvida, mas depois que escuta começa a emergir para tudo o que está sendo cantado. É uma percepção daquilo que já vivenciamos, porém ‘mortal’. É isso mesmo?

Voorhees: É isso mesmo! Você percebeu muito bem!

Por fim, qual o planejamento do Imago Mortis para esse segundo semestre. Muito obrigada e sucesso sempre!

Voorhees: Nós é que agradecemos a oportunidade de falar mais sobre nosso trabalho! Agradecemos também a você, leitor – que se interessou e chegou até aqui! Para o segundo semestre os planos são simples: queremos divulgar o CD tanto através das plataformas digitais (o mesmo se encontra no Spotify, Deezer, etc…) quanto físico. Estamos preparando novos itens de merchandise como camisas, bonés, canecas, o que der para fazer e vamos disponibilizar esse material para venda online através de nossa página no facebook, etc…

Também faremos alguns shows – pontuais este ano – como parte da turnê deste álbum, intitulada “LSD ON THE ROAD”. O primeiro show será em Indaial, SC no festival River Rock, no dia 08 de Setembro. Em dezembro devemos tocar no Teatro Odisséia (RJ) e em SP ainda sem local confirmado. Visitem nossas páginas para maiores detalhes e novas datas estão sendo agendadas.

Muito obrigado a todos e deixo uma frase final: “Sem a morte não haveria amor; Sem amor não haveria poesia; Sem sexo não haveria você!”.

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