“Novo caminho”

É muito bom ouvir as novidades das bandas brasileiras. Principalmente porque o investimento na música, num geral, ser complicada e ter estímulo para continuar ser ainda mais desafiador. Tive a honra de ouvir o novo cd do Dark Avenger.  Fui convidada pelo amigo de longa data, Glauber Oliveira (guitarrista). Então topei o desafio e escutei. Fui surpreendida positivamente. E garanto que, quem ouvir, vai ter a mesma impressão que tive. Fui envolvida pelas músicas e uma outra tocou de verdade. Foi uma experiência bastante sensitiva, longe das tecnicidades que acompanha. Acredito bastante que música é para encantar o ouvinte, seja o estilo que for. Leia agora meus apontamentos sobre as músicas de “The Beloved Bones” e as previsões para lançamento e show inédito.

Por Pei Fon | Fotos Desiree Galeotti

 “The Beloved Bones: Hell” é o sexto álbum do Dark Avenger. A priori, como tudo iniciou? Inspiração, gravação, tempo. Conta para nós.

Mario Linhares: Tudo iniciou como ideias para o novo disco do Harllequin, onde eu e  Glauber estávamos refazendo a banda para um novo trabalho de estúdio. Já havíamos feito uma música, “Parasite”, e nesse interim coincidiu de abrir uma vaga de guitarrista no Dark Avenger e eu convidei o Glauber para o posto. Ao assumir essa posição, tivemos uma nova conversa em que ficou definido que o Dark Avenger seria prioridade total a partir daquele momento e que traríamos a sonoridade do Harllequin para dentro do estilo do Dark Avenger, chegando a uma química que eu, particularmente, sempre busquei.

Concomitante a isso, eu estava me recuperando de uma cirurgia para remoção de um tumor na Coluna Vertebral e o processo de dúvidas sobre a morte e a recuperação da cirurgia foram fatores preponderantes para a criação do conceito que alicerça os dois álbuns (Hell e Divine), além de cadenciar e sequenciar as músicas e suas atmosferas.

Esse processo criativo cerca de um ano e meio e a produção mais um ano e meio.

TBB é uma peça. É mais complexo criar algo nesse molde do que buscar uma temática e trabalhar em cima dela?

Mario Linhares: Sim. Uma peça tem que ter Personagem, Texto e Motivo. A trama que une esses três entes tem que ser bem construída de tal forma que não se desfaça antes do tempo, não se alongue demasiadamente, se sustente no tempo em que transcorre e possua legitimidade cognitiva que desafie e prenda a atenção do interlocutor com seu ineditismo, sob pena de cair na vala comum do previsível.

A faixa-título abre os trabalhos. Tenho comigo que se os primeiros minutos me cativarem é porque devo gostar do que está por vir. Um orquestral e instrumental bem colocado vai me ganhar sempre. Explique um pouco sobre essa faixa.

Glauber Oliveira: O “The Beloved Bones” é um solilóquio, que se apresenta com sua nostalgia e solitude. O violino do início é a narrativa pungente e dramática de um ‘eu’ que inicia uma viagem para dentro de si em busca de visualizar seus infernos que, sendo multidimensional, irão explodir e expandir mais à frente… assim como as orquestrações do disco.

Se você prestar bem a atenção, o disco começa e termina em um caminhar… para dentro do inferno do ‘eu’ na primeira música. Para fora do inferno do ‘eu’ na última música… com atuações similares dos dois instrumentos (violino no início e guitarra no fim), mas com tônus interpretativos opostos.

O álbum é uma constante discussão entre a razão e a emoção. Em que momento vocês acham que elas se unem?

Mario Linhares: O Racional inicia a caminhada dessa primeira parte do “The Beloved Bones”  muito agressivo por se achar menosprezado por um EU em que há predominância do Emocional na sua personalidade.

Com o transcorrer do disco o antagonismo entre eles vai diminuindo e se equilibrando, culminando na décima primeira música com a predominância de um EU totalmente equilibrado.

Mário, cantar razão e emoção é complexo?

Mario Linhares: Muito… é um trabalho que beira a esquizofrenia… e um cuidado muito grande para não soar esquizofrênico. O mais importante é passar e manter a legitimidade da ideia sem soar piegas nem superficial.

“Parasite” é bastante interessante no que tange as péssimas amizades e influências. Ninguém está livre disso na vida. Gosto bastante dessa faixa.

Glauber Oliveira: Na realidade Parasite fala de um Emocional que não enxerga o Racional como um parceiro na construção da psiquê humana. Ele sente que o Racional é um parasita de sua vida… ou seja… ele enxerga que a vida do EU deve ser apenas emoções… e os alertas e orientações do Racional não são bem vistas nem bem vindas. Toda essa aversão é demonstrada na forma de ira e desespero. Procuramos demonstrar esse momento com o máximo de agressividade.

“Breaking Up Again” questiona a própria existência do ser. Se ele seria um heroi, mas não distante da realidade, seria o mesmo que  ‘o que estou fazendo aqui?’, por exemplo?

Mario Linhares: Essa música é a antítese da anterior. O Emocional iniciou uma argumentação em “Parasite” onde procurou marcar posição sobre suas ideias, mesmo que erroneamente. Em “Breaking Up Again” ele tenta exaltar sua participação na constituição do EU, mostrando que é por causa dele e de suas ações que o EU existe e é feliz… argumentos fortemente refutados pelo Racional.

“Empowerment” é a razão tentando ajudar o emocional a enxergar, se recuperar, buscar uma saída para sua própria sobrevivência. Vocês já viveram isso na prática?

Glauber Oliveira: Sim… os processos de interação familiar, profissional e até mesmo intrapessoal são sempre recheado desses momentos em que a razão tende a nos puxar para fora de situações mentais de pessimismo e derrota. E é disso que a música fala… o Racional falar mais alto… sem ofuscar nem ignorar a fragilidade do Emocional.

“Nihil Mind” é sobre fim de relacionamento, pelo menos encaro assim. Engraçado é que me sinto parte dela. É o emocional sendo racional, buscando explicações, com uma carga emotiva densa sobre si querendo afastar esse sofrimento.

Mario Linhares: Sim, é uma lembrança do momento em que houve o rompimento da interação estreita, normal e desejada, entre o Emocional e o Racional do EU. Como Racional e Emocional tem um appeal muito grande em termos semióticos entre o masculino e o feminino, é super normal essa interpretação ter analogia entre a vida de duas pessoas.

Somente a morte liberta dos fracassos da vida? A pessoa, enquanto vive, não pode buscar sua liberdade também? O que poderia impedir?

Mario Linhares: Somente ‘a morte do problema’ liberta a pessoa das situações de infelicidades. O disco não trata da morte física do EU e sim da dor de ter que interromper uma situação dolorida na vida. Por exemplo, imaginemos uma situação bem comum como uma mãe de família, que é dona de casa, três filhos, que lutou para ter sua casa e seus bens… mas vive um casamento violento.

Decidir sair de casa com os filhos, abandonar o casamento e o seu padrão de vida, familiares, não deixa de ser uma decisão muito difícil de tomar. É como se fosse uma morte e é disso que a música fala: “enquanto o EU não matar essa situação de infelicidade e desconforto… ele continuará vivendo um inferno”

“Solar Mors Liberat” é sensacional. O instrumental faz toda a diferença. Já posso até imaginar o vídeo dessa canção. Um lugar obscuro, com bastante neblina e galhos secos, uma única lápide. O ser questionando a si mesmo enquanto vivo. Após os últimos acordes da guitarra, definha sobre sua própria sepultura.

Glauber Oliveira: Wow… gostei da ideia! É algo a se pensar! A música é um réquiem, uma música para os mortos, que é foco central da letra. Mas não a morte do EU, porém a morte do problema do EU. É o fim do problema e o nascimento de um novo caminho para o EU… ainda desconhecido. Por isso os dois ambientes da música. Morte e Renascimento.

 “When Shadows Fall” é bastante reconfortante. Após ‘morrer’, que lugar seria esse para se sentir livre?

Mario Linhares: A pessoa que morre para seus problema tem a obrigação de fazer valer a sua existência. Como fazer? O que vai ser ou acontecer? Ainda não se sabe… só no próximo disco. O importante é não ter medo do desconhecido. Não ter medo do que está nas sombras do conhecido. E é disso que a música fala. Aquilo que eu amo, ainda me é desconhecido. Ainda descobrirei.

Após ouvir o cd inteiro, a sensação que dá é que, em algum momento, você é tocado por alguma faixa. Impossível não enxergar o que você viveu/vive. Falar dos percalços da vida pode ser ‘fácil’, mas não é, é bastante complexo. É um cd muito bem pensado, tocante e envolvente. Com certeza, estará entre os melhores lançamentos de 2017.

Glauber Oliveira: Esse era o objetivo nosso desde o início. Foi um trabalho muito bem pensado, construído para ser solidário e generoso com quem interagir com ele. E, acima de tudo, ser atemporal. Estamos felizes com os primeiros resultados, as pessoas tem se enxergado nele e nos procurado para dar seus depoimentos pessoais. Isso é algo que não tem preço!

Um show está sendo marcado para setembro e vai tocar na íntegra “The Beloved Bones: Hell”. Vocês pensam em propor uma experiência sensitiva aliada ao sonoro nessa audição?

Glauber Oliveira: Não pensamos em nada disso ainda. Certametne haverá uma cenografia, iluminação e backing vocals dando um tom mais espetacular ao show.

Agora em quarteto, há uma responsabilidade imensa em todas as composições. Mas nada ficou a desejar. Sob a produção de Glauber Oliveira, também guitarrista, o DA toma um novo rumo?

Mario Linhares: O Dark Avenger é um quinteto. A foto de divulgação atual consta de quatro integrantes, pois estávamos em um momento de transição de membros da banda e não havíamos escolhido o novo baterista, Brendon Hoffmann. Quanto aos novos rumos, o Dark Avenger está tomando o rumo que eu sempre quis, mais pesado, mais moderno, mais Dark. A entrada do Glauber e sua produção foram fundamentais para a solidificação desse novo caminho… que não tem volta.

E por que masterizar com Tony Lindgren, do Fascination Street? O mesmo lugar que o Kreator deixou para ‘cuidar’ de “Gods of Violence”.

Glauber Oliveira: A escolha faz parte desse novo direcionamento sonoro que desejamos para a banda, pesado e denso, mas ao mesmo tempo, dinâmico em suas estruturas e atmosferas.

Por fim, o que podemos esperar do Dark Avenger para 2017? Muito obrigada e sucesso!

Mario Linhares e Glauber Oliveira: Queremos poder aumentar exponencialmente a nossa base de fãs e fazer muitos show pelo Brasil e pelo mundo para mostrarmos esse novo trabalho. Gostaríamos de poder levar a cada pedaço desse país, principalmente em localidades em que ainda não temos tocado com a frequência que desejamos.

 

 

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