Indígenas bem na cara

O Arandu Arakuaa é uma banda de Brasília e traz em suas composições elementos do metal e elementos de música indígena e regional. Se você ainda não conhece, se faça um favor e prestigie essa banda que, além de um trabalho musical maravilhoso, também faz um trabalho de resgate da verdadeira cultura brasileira, hoje subvalorizada por tantos grupos e representantes políticos. Seu trabalho está disponível em diversas plataformas digitais e deixaremos alguns links ao final dessa matéria.

Esse ano marca o lançamento do álbum “Mrã Waze” (Respeito a Natureza no idioma indígena brasileiro Akwẽ Xerente). Aproveitamos a oportunidade para bater um papo com o Zhândio, vocalista e fundador do Arandu. Aperte o play no álbum novo e confira aqui como foi!

 

Por Edi Fortini | Fotos: Banda/Divulgação

 

Olá, Zhândio! É uma honra para nós, da Rock Meeting, ter vocês em nossas páginas! Somos muito gratos por vocês trazerem um pouco da cultura indígena para a mídia e para música, pois temos pouco acesso, infelizmente! Vamos lá!

O Arandu se formou em 2008 e aos poucos vem ganhando espaço na mídia brasileira, especialmente nos últimos anos. Como tem sido isso pra vocês? Vocês estão satisfeitos com esse espaço que vêm ganhando? O que ainda falta pra vocês conquistarem?

Zândhio Huku – O retorno positivo de público e mídia vem superando nossas expectativas desde o lançamento do nosso primeiro EP no início de 2012. Somos muito gratos por todo esse apoio e sempre tentamos agarrar as oportunidades que nos são dadas.

Não tenho certeza do que exatamente falta para a banda conquistar. Minha missão é apenas espalhar alguns pedaços de mim em forma de música por aí, e torcer para que através delas passem a respeitar mais a mãe natureza e os povos originários dessa terra.

Vocês utilizam os idiomas Tupi, Xerente e Xavante para compor músicas. Quais são as principais diferenças entre eles?

Xerente e Xavante são idiomas semelhantes, ambos são do tronco linguístico Macro-jê, portando bem diferentes do Tupi.

Você tem mostrado às comunidades indígenas o trabalho musical e de divulgação que vocês têm feito? Como tem sido a reação da comunidade? O que eles esperam de vocês?

Sempre mantive contato com os parentes indígenas de diferentes povos, inclusive de outros países da América Latina, eles sempre demonstram muito respeito pelo nosso trabalho artístico e pela forma que abordamos e divulgamos as culturais nativas.

Como é pra você ter uma vivência um tanto indígena e um tanto “urbana”? Você acredita que em algum momento essas vivências possam se complementar de alguma forma?

Eu diria que quanto mais tempo passo na cidade, mais indígena eu fico. Encaro a vida como sendo apenas uma sucessão de acontecimentos onde vou adquirindo novos conhecimentos, e a cada dia mais tendo certeza de onde venho e qual é minha missão nessa curta passagem. Imagino que meu trabalho artístico seja um retrato dessa vivência e dessa missão.

Temos lido tantas atrocidades com os povos indígenas todos os dias. Como você, que está mais próximo desta causa, lida com todos esses fatos? Qual a opinião de vocês acerca desses fatos?

O genocídio contra os povos originários dessa terra nunca cessou. Os invasores apenas vão desenvolvendo novas estratégias para tentar calar de vez as vozes de tantos povos. Porém, a relação dos indígenas com essa terra vai muito além do plano físico, toda energia dessa terra é indígena. Não tem como se matar algo que é parte da terra, do ar, dos céus…

O que nós, que infelizmente estamos mais longe das comunidades, podemos fazer para ajudar a manter viva essas tradições e comunidades?

Ter ciência que somos apenas uma pequena parte da mãe natureza, e se a destruímos estamos destruindo a nós mesmos. Tendo essa compreensão poderemos contribuir nas lutas dos povos originários e ajudar a preservar nossas tradições.

Temos alguns outros artistas (não tantos como deveríamos) que ajudam a mostrar a causa indígena na música, como o grupo Mawaca, por exemplo. Quem mais você indicaria pra gente conhecer mais a respeito?

Existem trabalhos artísticos relevantes feitos por não indígenas, mas que em sua grande maioria são apenas projetos pontuais (como é o caso do Mawaca) e quase nunca dão continuidade à “temática indígena”. Atualmente vejo artistas indígenas ocupando também esses espaços, como é o caso da Djuena Tikuna, Tuim Nova Era, dentre outros.

No heavy metal, você disse ter influência de Black Sabbath e Metallica. E na música regional, quem você destaca como inspiração?

Essa coisa das influências a gente acaba citando artistas que foram inovadores e influentes para um determinado nicho. Na música regional não é diferente: cresci ouvindo Luiz Gonzaga, Alceu Valença e todos esses artistas populares do Norte/Nordeste. Na verdade quando vou compor não acho que apareçam influências diretas das músicas que ouço, as ideias apenas surgem sem que se possa ter controle sobre elas. Eu diria que compor é algo espiritual, é basicamente decifrar o que o universo envia e ser um mensageiro dele.

Em junho vocês lançaram o belíssimo vídeo para música “Huku Hêmba, primeiro single do disco “Mrã Waze” e agora estão prestes a lançar o seu terceiro full álbum. O que você pode nos adiantar sobre ele?

É um típico disco do Arandu Arakuaa, com partes pesadas e técnicas, melodias fortes, as influências indígenas bem na cara, vocais limpos, guturais, isto é, têm músicas pesadas, músicas acústicas, músicas indígenas, porém a maioria delas funde todos esses elementos, como é o caso da Huku Hêmba. Eu diria que esse disco está mais complexo e místico que os anteriores.

Como foi o processo de composição do novo álbum? Em que ele se difere dos anteriores?

Não foi muito diferente dos outros. Levo as música com uma estrutura já montada (melodias, letras, riffs) e no estúdio trabalhamos juntamente com o produtor Caio Duarte na elaboração dos arranjos.

Após o lançamento do álbum, vocês já têm planos para a divulgação? Podemos esperar mais shows, talvez por todo o Brasil?

Com relação a shows nunca temos certeza quantos e quando irão rolar, devido a todos os problemas financeiros que o país atravessa. Única coisa que tenho certeza é que não mediremos esforços para levar nossa música ao maior número de pessoas possíveis, seja lá por qual meio for.

Esse espaço é pra vocês mandarem recados aos nossos leitores. 🙂

Só temos agradecer à Rock Meeting pelo espaço cedido para falarmos sobre nossa arte, bem como a todos que nos apoiam. Sem vocês isso tudo não seria possível e nem faria sentido.

 

Contatos da banda:

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