Quem resolve os problemas da banda

Ilustração – Jonathan Canuto

 

“Cara que resolve os problemas da banda”

O mundo da música é maravilhoso, mas você sabe quem são os personagens por trás desse processo? Ok, a banda é um deles. Mas quem diz o que é bom ou não é o produtor musical. O seu papel é de fundamental importância para que a banda transmita o som que estão buscando, que dê a cara que precisa. Então, convidamos o produtor Adair Daufembach para falar um pouco do seu trabalho, da sua experiência e o que espera do futuro. Acompanhe!

Por Pei Fon | Foto Divulgação

O Brasil é imenso e talvez tenha alguém que não lhe conheça. Por favor, apresente-se.

Olá, meu nome é Adair Daufembach, eu sou um produtor musical brasileiro que atualmente mora e tem um estúdio em Los Angeles. Eu já trabalhei com bandas e artistas como Project46, Hangar, John Wayne, Tony MacAlpine, Dirk Verbeuren entre muitos e muitos outros. Eu acredito que um produtor é definido pelos seus trabalhos, então esses são apenas alguns dos trabalhos que eu fiz e se você não me conhece convido a entrar no site www.daufembach.com e saber mais sobre, ficarei honrado.

Ouvir música é relaxante, terapêutico e segue com infinitos benefícios. Mas até chegar ao produto música, muita coisa acontece. O que o produtor musical faz?

A figura do produtor musical mudou ao longo dos anos. Há uns 20 anos atrás ainda era comum se ver uma divisão nítida entre o produtor musical, engenheiro de som, mixador e masterizador. Atualmente o produtor musical se tornou, como eu costumo chamar, “o cara que grava o disco”. Eu ainda definiria o produtor musical como o “cara que resolve os problemas da banda”. Tem bandas que já sabem fazer música muito bem, por exemplo, e eu não preciso mexer tanto assim nas músicas e nas composições, posso focar mais na performance e no som do disco, enquanto outras bandas o trabalho é justamente mais em cima das composições que não necessariamente precisam ser mexidas porque são ruins, mas sim por uma falta de organização. Já gravei discos excelentes em que basicamente todo o material que a banda trouxe foi usado, mas de uma forma diferente de como concebido por ela.

Até chegar o que queremos seguir profissionalmente, passamos por muitas dúvidas. Como tudo aconteceu na sua vida? Você escolheu a produção musical ou ela te escolheu?

Muito legal falar disso. O meu pai era advogado e a minha história com ele sempre foi complicada porque meus pais se separaram cedo, então depois dos 10 anos de idade eu não tinha mais o convívio com ele. Por causa disso eu acabei optando por fazer Direito e hoje eu enxergo que fiz isso mais como uma forma de conviver com ele novamente do que (obviamente) amor ao Direito. Fiz a faculdade inteira dizendo: “Isso aqui eu aprendo com o pai depois” (risos).

E aí meu pai faleceu no último ano da faculdade e eu, que já não gostava do Direito e já estava gravando naquela época, decidi cair de cabeça na produção musical. Ou seja, ser produtor era a minha melhor alternativa naquele momento. A minha agenda do estúdio já era bem cheia, pois, mesmo sendo o início, eu sempre fui muito dedicado desde a primeira gravação. Eu me dediquei que nem um louco nos primeiros discos que produzi e isso chamou muita atenção da cena Rock de Criciúma, os discos eram bem melhores que dos estúdios profissionais comerciais da região. Fiz isso sem equipamento nenhum praticamente.

Então, de certa forma, eu encaro que a minha profissão me escolheu porque eu não tive que fazer força para conseguir trabalhar com isso, num determinado momento aconteceu naturalmente.

Catarinense saiu de Criciúma para Los Angeles. Como foi/tem sido essa mudança? Você está adaptado a essas diferenças? Foi difícil?

Eu morei cinco anos em São Paulo antes de me mudar para Los Angeles e isso ajudou na mudança, não apenas porque eu já tive experiência de uma grande mudança na minha vida, mas também para me acostumar com o ritmo de cidade grande. A mudança para São Paulo foi muito difícil e eu achava que ela me credenciaria para mudar para Los Angeles mais “tranquilamente”(risos), mas definitivamente não foi. Mudar de país é uma coisa muito difícil e realmente só quem já fez sabe o tamanho da bronca. Até você chegar e se acostumar com o esquema de crédito no EUA, visto de trabalho, comida, comprar carro e alugar uma casa é terrível. Eu e a minha esposa conseguimos resolver isso relativamente rápido, mas foi muito cansativo. Pra falar a verdade um dos desafios mais difíceis da minha vida.

Hoje estou adaptado e adoro morar em Los Angeles, da esquina da minha casa eu vejo o letreiro de Hollywood e todas as vezes que eu o vejo eu pensa: “puxa que ducaralho… estou aqui”.

Todos nós temos ambições, qual é a sua?

A minha ambição é de conseguir construir uma carreira aqui como eu fiz no Brasil, que já está rolando, gravar uma banda gigante do metal e ganhar um Grammy. Vários de preferência (risos).

Também gostaria muito de ver a cena com a qual trabalhei no Brasil fazendo sucesso por aqui. Já tem algumas bandas que tem feito shows nos EUA e acho que vai rolar em breve algum “novo Sepultura”. Eu nunca me mudei do Brasil com a intenção de “abandonar completamente” essa cena com a qual trabalhei. Continuo trabalhando com bandas brasileiras e sempre vou.

O que seu estúdio tem de diferente dos demais que faz as bandas irem ao seu encontro? Faço a mesma pergunta do seu perfil: Por que você é diferente?

Hoje o meu estúdio tem as vantagens de ser um estúdio em Los Angeles. Aqui tem vantagens incríveis em termos de equipamento, por exemplo pela primeira vez eu consegui comprar um console, no Brasil isso era impossível por causa do preço. Aqui também é muito fácil achar os equipamentos top de linha. A loja de música mais perto da minha casa hoje é a Guitar Center, que é uma das maiores lojas de instrumentos do mundo. Então durante a gravação do Project46 aconteceu várias vezes de a gente parar e ir lá rapidinho comprar alguma parada para as gravações. Tipo, isso é um luxo incrível, isso é uma vantagem que a cidade diretamente oferece no resultado do seu trabalho. Eu não tinha mais que esperar 20 dias para a loja trazer as peles de bateria que eu queria para gravação, saca? Outra coisa que influencia muito é que a maioria dos imóveis de Los Angeles são de madeira, diferentemente do Brasil que é alvenaria. Madeira tem um som muito mais agradável principalmente para bateria e, por exemplo, a sala de bateria que eu tenho aqui é de longe a melhor que já tive.

Esse lance da sala de bateria, bem como gravação de bateria no geral, é o que eu acho que mais me diferencia. Quando eu comecei, lá por 2002, os samplers de bateria eram horrorosos então qualquer um que quisesse som de bateria legal tinha aprender a gravar bateria de verdade, eu sou dessa geração. Eu lembro que os primeiros equipamentos bons e caros que eu comprei para o meu estúdio eram todos para poder gravar batera bem. Assim eu tenho feito desde o começo, o que me dá uma grande experiência com gravação de batera. Logicamente que aqui em Los Angeles estão a maior parte dos melhores engenheiros de gravação de bateria do mundo, a concorrência é pesada, mas a questão é que não se está criando uma nova geração de engenheiros de gravação de bateria justamente porque hoje os samplers são excelentes. Então, engenheiros de bateria com experiência são cada vez mais raros e tem aparecido vários trabalhos para mim justamente por eu ter uma vasta experiência com gravação de bateria.

Quando um brasileiro ganha destaque fora do país é de se comemorar. Você vem se destacando entre as personas importantes da cena Rock/Metal e das empresas do meio. Visando tudo o que passou, em que momento da sua caminhada está?

Eu estou naquele momento assim: sei que já alcancei muita coisa de valor, muita coisa da qual me orgulho, mas me enxergo ainda como que “no meio do caminho”(risos). Eu tenho muito medo de me deslumbrar demais com o que já aconteceu e ficar preguiçoso. Há alguns anos atrás eu praticamente não conseguia enxergar as coisas que eu tinha alcançado e não comemorava as coisas, ou ainda pior, achava que o que eu tinha feito não era tão importante assim.

Teve um dia que eu estava passeando em São Paulo e recebi uma ligação do Rafael Ramos da Deck Disk que me fez enxergar o quão incríveis eram as coisas que estavam acontecendo. Ele me ligou para dizer que um garoto que trabalhava na lanchonete onde ele comia todos os dias chegou pra ele e falou:

Rafael você tem que ouvir essa banda aqui (era o Project46) esses caras são de São Paulo e eles tem uma cena que canta metal em português… é do caralho, é só procurar pelo Adair Daufembach, ele é o cara que grava essas bandas todas“.

Isso aconteceu há alguns meses do Project46 tocar com o John Wayne no Rock in Rio. Naquele momento me bateu um sentimento de que realmente o que eu estava fazendo era importante. Daí depois o Rafael lançou, Ponto Nulo, John Wayne e Savant Inc., todas bandas que eu havia gravado. Foi bem foda.

Conversando com os músicos que vivenciaram todas as mudanças tecnológicas no Brasil são unânimes em dizer que não havia produtor musical que entendesse a linguagem. E hoje, mesmo com tudo disponível, o que você tem pra dizer do seu próprio segmento?

Infelizmente isso é uma verdade. É bem recente o surgimento de “Produtores de Metal” no Brasil. E como a maioria dos estúdios antigamente tinham equipamento e métodos para gravar música brasileira isso tornava a produção de Heavy Metal mais “estranha”, vamos dizer assim (risos). Isso porque no Heavy Metal tudo em termos de gravação é o contrário do que acontece em música brasileira. Samba, Pop, Bossa Nova e etc. são estilos com dinâmica extrema, em que tudo tem que soar extremamente limpo, com a voz na frente e edição é um crime. Heavy Metal é o contrário. Tanto que é bem fácil achar uns discos brasileiros de metal dos anos 80 e 90 que soam como um disco do Barão Vermelho. Nada contra o Barão Vermelho, muito pelo contrário aliás.

Outra prova disso é que eu lembro que quando eu comecei não tinha nenhum curso de produção musical no Brasil voltado para “Heavy Metal”. Tanto que, nos meus primeiros workshops em São Paulo, eu recebi gente do Brasil inteiro. Veio gente de muito longe, todo workshop era uma surpresa. Galera do Rio Grande do Sul, Pernambuco e até do Acre. A galera estava sedenta por saber.

Adair  e Rafael juntos com o baterista Dirk Verbeuren.

Na produção musical já teve banda que você não quis produzir de jeito nenhum? Teve algum tipo de atrito ou algo assim?

Eventualmente tem alguns projetos que eu não me identifico com a música e eu acabo recusando, isso geralmente acontece com bandas de estilos bem fora do que eu costumo produzir. Eu tenho que gostar e acreditar no trampo. Nunca aconteceu nenhum atrito no meio de um disco que me fizesse desistir dele. Já tive discussões acaloradas no meio da produção, bem acaloradas diga-se de passagem (risos), mas não ao ponto de ir embora ou desistir.

Você hoje é o engenheiro pessoal do Dirk Verbeuren, baterista do Megadeth. Como esse encontro aconteceu? Conta para nós.

O Rafael Pensado, um grande amigo e parceiro meu aqui de Los Angeles começou a trabalhar com o Megadeth e apresentou o meu trabalho para o Dirk, ele estava a procura de alguém para gravar as baterias de um Album importante. Essa gravação era super complicada tecnicamente e o cliente estava com as expectativas bem altas. No final o cara adorou a gravação e a partir de então começamos a repetir o time sempre. A gente grava no estúdio do Rafael, o Machina Factory, comigo de engenheiro e o Dirk arregaçando nas baterias. A gente se diverte muito. É um clima incrível.

Top 5. Quais as cinco álbuns que gostaria de ter produzido? Fale um pouco sobre eles.

Obviamente que se eu tivesse produzido eles teriam ficado diferente, então talvez essa não fosse uma boa ideia já que são álbums que eu amo (risos). Então os cinco álbums que eu teria orgulho de ter chegado no mesmo resultado seriam:

No More Tears – Ozzy Osbourne

Black Album – Metallica

Metropolis II – Dream Theater

Slipknot – All Hope is Gone

Joe Satriani – The Extremist

Por fim, quais os planos para amanhã? Muito obrigada. Sucesso sempre!
Continuar fazendo discos, gravar um gigante do Metal e ganhar um Grammy (não necessariamente nessa ordem, risos).

 

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