Tattoo do Bem

 

Bárbara Nhiemetz – tatuadora.

 Tattoo do Bem

Samantha Feehily – jornalista e modelo Wonder Girls

O câncer de mama é o segundo tipo de câncer mais recorrente do mundo. A cada ano, a estimativa é de que 40 mil mulheres morram acometidas por esse mal. Quando identificado a tempo, as chances de cura são altas, mas a mastectomia (cirurgia de remoção completa do seio) ainda é a forma mais eficaz de remover o tumor. De acordo com dados da Sociedade Brasileira de Mastologia, a doença afeta 1 em cada 15 mulheres brasileiras. A notícia é boa: os avanços no diagnóstico e tratamento do câncer de mama elevaram as chances de cura para 90% quando descoberto no início. O problema: no Brasil, a mortalidade continua alta porque 30% dos casos são diagnosticados em estágios mais avançados, quando o índice de cura é baixo. Além disso, há cerca de 12 mil mortes de mulheres todos os anos no país em decorrência da doença – o equivalente a 2,5% das mortes femininas no Brasil. O principal método de diagnóstico precoce ainda é a mamografia, radiografia das mamas (o que reforça a importância de sempre fazer o exame anualmente).

Com a mastectomia, ficam as cicatrizes – físicas e psicológicas. Tendo optado ou não pela reconstrução da mama, algumas mulheres acreditam que tatuar a região operada é uma maneira de superar esse difícil processo.

Para o tatuador, Gil Miranda, proprietário do estúdio De Angelis Tattoo se destacado no em seu meio por uma causa muito especial. O profissional com mais de 17 anos na profissão, atende gratuitamente, em seu dia de folga, pessoas vítimas de câncer. “Fazer minha primeira tatuagem de reconstrução de Aréola foi uma via de mão dupla de satisfação. Ela favorece a quem recebe e também favorece a quem a pratica. Ser útil sem pretensões, de ajudar em troca de um sorriso – ou, às vezes, nem isso”, diz.

Boas atitudes movem o mundo! “O conceito se baseou na minha firme convicção de que cada um de nós pode dar um pouco de si, conforme seu talentos e habilidades. Todos podem fazer uma boa ação e contribuir para a comunidade em geral. A caridade é, por si só, uma das ações mais bonitas do ser humano. Não importando o tamanho da ação, e que jamais seja autopromoção. Tanto que não tiro muitas fotos, e não publico muito, o próprio boca a boca tem mandado muitas mulheres no meu estúdio”, lembra, Gil.

Ele não está sozinho. À frente do Projeto Cores Que Acolhem, a tatuadora de 25 anos, Bárbara Nhiemetz, proprietária do Bárbara INK Tattoo, há dois anos exerce este trabalho de forma gratuita todas as segundas. “Tatuo profissionalmente desde os meus 14anos e decidi fazer minha primeira tatuagem de reconstrução de autoestima em minha própria mãe, que há 18 anos venceu um tumor maligno o qual a fez perder toda a mama esquerda e também levou embora todo o amor próprio que ela tinha.  Comecei a tatuar muito nova por incentivo em ver as pessoas felizes, quando eu era pequena entre sete e oito anos me pegava desenhando com canetinha no local onde antes havia uma mama. E deste momento em diante percebi que se eu fosse tatuadora poderia eternizar aquele sorriso o qual minha mãe tinha quando eu desenhava. Me profissionalizei na área da tatuagem, porém, anos mais tarde, me vi passando pela mesma situação, meu filho Zekky nasceu prematuro de seis meses e meio e logo em seguida descobrimos que ele possuía três nódulos na parte de dentro da axila. Passando por esse momento difícil me peguei pensando em como as cicatrizes que os tumores deixaram nele iriam intervir na autoestima dele. Me lembrei das vezes que acompanhei todo o sofrimento de minha mãe e vi que tudo tinha um propósito, o meu era usar do amor à arte para ajudar o próximo. Com isso, meu marido – Thi Ian, também tatuador –  e eu,  nos propusemos a fazer o trabalho voluntariamente”, conta.

Debora Farias – Modelo Wonder Girl.

Olhar-se no espelho e se ver careca e sem seu seio, olhar e não enxergar mais aquela mulher que via antes. Esta é a realidade de muitas, “saber o diagnóstico é um choque porque você não espera por isso, mas ao mesmo tempo pensei, tenho que ser forte, entreguei tudo nas mãos de Deus e disse para mim mesma, você consegue, lute”, confessa Silvane Alves de 42 anos, mãe da modelo Wonder Girls, Ester Alves. “Não foi fácil, não esperávamos por isso, mas minha mãe sempre foi uma pessoa muito positiva, desde o começo acreditei que ela fosse capaz de passar por isso sorrindo” assegura, Ester Alves, modelo Wonder Girls.

Fé na vida! “A fé está sendo muito fundamental, não só nesse momento, mas em todos da nossa vida, a fé nos mantém fortes para continuarmos, sinceramente não conheço pessoa que tenha mais fé do que minha mãe”, frisa a modelo. “Encontrei apoio na minha família e amigos. Por mais que não estejam preparados para aquilo, o importante é demonstrar otimismo e apoiar, mostrar que estão ali para que der e vier. Ainda vou passar pela cirurgia, mas já penso, que se necessário for, vou fazer uma tatuagem corretiva. Do dia de amanhã entrego na mão de Deus pois ELE é o dono da minha vida, espero paz muita paz, amor, carinho, saúde e sucesso em tudo que eu fizer” planeja Silvane.

Vale lembrar que a técnica utilizada para se fazer a tatuagem reconstrutiva de fato não é a mesma de uma tatuagem comum, pois ela requer muito conhecimento da área da oncologia para que cada paciente não corra o risco de ser afetada pela pigmentação que não deixa de ser invasiva. “Faço não somente as aréolas mas também desenhos estéticos que trazem mais alegria ao se olharem no espelho. O fato delas virem com o emocional muito abalado mostra como estão por dentro, mutilada não somente na mama ou também em outras áreas mas por completo. Vale lembrar que meu atendimento não é somente direcionado a pacientes que tiveram câncer de mama. Mas que tiveram qualquer tipo de câncer que as tenha deixado com cicatrizes que as incomodem. Seja homem ou mulher, sendo maior de idade o atendimento será certo” relata Bárbara. “Na tatuagem utiliza-se pigmentação e máquina tradicional de tatuagem. Na reconstrução é quase o mesmo processo, porém com mais leveza (quase uma micropigmentação) e um estudo mais aprofundado de colorimetria para que possa chegar na cor ideal para cada tipo de pele”, destaca Gil.

Silvane Alves. Foto: Rafael Mello.

A importante destacar que o processo da tatuagem corretiva pode ser realizado somente em pacientes oncológicos que já venceram a doença e que devem ter a alta médica. Pacientes que fazem radiação precisam ter, pelo menos, dois anos da cicatrização para que não haja interferência na pigmentação. “Para os pacientes agendarem é necessário trazer uma autorização medica do cirurgião plástico ou oncologista que trata do caso constando não somente uma breve descrição do câncer e do tratamento como também deve obrigatoriamente ter o CID da doença” destaca, Bárbara. “Ninguém melhor que o médico para dizer quando é a hora certa que a mulher poderá fazer. Apesar de termos certo conhecimento, o profissional que cuidou dela durante todo o processo irá falar com precisão. E com o atestado em mãos começamos a fazer a autoestima crescer. Para marcar basta ligar na loja e marcar, é de suma importância levar o atestado de liberação do médico(a), e com todo carinho e amor iremos marcar para o mais breve possível”, promete Gil.

Os cuidados com a tatuagem são bem parecidos com os da tatuagem comum, alimentação adequada, pomada correta, evitar fricção, não entrar em piscina/mar e evitar o álcool. “Na maior parte dos casos a coloração da aréola clareia e após três meses. Áreas com muitas cicatrizes, fibroses e sequelas de radioterapia podem não pegar o pigmento e tem chance de ficarem levemente machucadas após o procedimento. Por essa razão, em alguns casos será preciso retoque para chegar a pigmentação ideal’, esclarece Gil.

“A respeito da sensibilidade, em sua grande maioria não sentem quase nada de dor devido a ruptura de enervações. A maior contraindicação é para pacientes ainda em tratamento, pacientes que são imunudeprimidas, pacientes que estão com alta radiação na área recente e pacientes que tenham fístulas ou qualquer machucado na área afetada. Acredito que estas pessoas já sofreram muito em suas vidas e por isso não as obrigo a finalizar numa única sessão. Creio que por elas já terem passado por tantas dores e traumas que não há a necessidade de fazê-las aguentarem tudo numa única vez. Faço por sessões e as deixo o mais à vontade possível” diz Bárbara.

As mulheres podem, em casa, fazer o autoexame com cuidado, preferencialmente uma vez por mês, sempre a partir do final da menstruação ou, na menopausa, em um dia específico do mês. É importante que as mulheres estejam atentas ao seu corpo e ao sinal de qualquer tipo de alteração, sendo então importante comunicar ao médico. Lembre-se: o autoconhecimento não substitui o exame clínico realizado pelo médico ou a mamografia. Tumores em estágio inicial não costumam apresentar sintomas. Mais: eles só se tornam sensíveis ao toque numa fase posterior. Então, repita conosco: só o autoexame não basta!

Leidiane – Modelo Wonder Girl.

Como fazer:

Diante do espelho, em pé e com os braços soltos ao longo do corpo, observe o bico dos seios e a aréola. Veja se há retração ou mudança na cor da pele, da superfície ou do contorno da mama.

Levante os braços acima da cabeça e observe se há retração na pele da mama ou do mamilo.

Deitada, coloque um travesseiro sob o ombro direito, ponha o braço direito atrás da cabeça e, com a mão esquerda, apalpe a mama direita.

Em movimentos circulares suaves, aperte toda a mama com a ponta dos três dedos médios juntos, sem tirá-los da pele, para sentir se há nódulos ou endurecimentos. O movimento da mão deve ser leve e de cima para baixo. Revise também embaixo das axilas.

Repita os movimentos apalpando a mama esquerda com a mão direita. O autoexame pode ser feito durante o banho, com as mãos ensaboadas. Sentiu algo errado. E agora? Se você percebeu um nódulo, é hora de calma e prudência. Ligue para o médico e marque sua consulta para poder fazer a mamografia.

“Nessa vida nunca estamos preparados para momentos ruins ou difíceis, mas eles aparecem! Precisamos ser o mais forte possível, ter determinação e fé, acreditar em nós mesmos e nunca duvidar da nossa capacidade, por mais difícil que seja somos capazes, como minha mãe sempre disse Deus não te batalhas maiores do que você possa aguentar”, finaliza Ester Alves.

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