Dias Negros Para o Rock

Show de Roger Waters em São Paulo. Foto: Camila Cara

De Roger Waters, “Ele Não” e “Ele Sim” – Dias Negros Para o Rock

Por “Metal Mark” Garcia

10/10/2018, três dias após o primeiro turno das eleições presidenciais. Ele marca, definitivamente, um dos piores períodos do Rock como um todo no Brasil.

No dia 09/10/2018, o músico, durante o show que ocorreu no Allianz Parque, em São Paulo, diante de 45,5 mil pessoas, na execução da música “Eclipse”, surge no telão o lema “Ele Não”, usado no Brasil pelos grupos que se opõem à eleição do candidato Jair Bolsonaro. Além disso, houve a colocação do nome do mesmo como o representante do neofascismo no Brasil.

Acredito que por meu passado e teor crítico da sessão, vão achar que quero detonar Waters. Não, nem me passou isso pela cabeça.

Sendo sincero: tenho meu posicionamento político que não é de esquerda ou direita. Não sendo fã de Roger, seria fácil descer o malho, mas estou me acostumando com o pensamento militante dentro do Rock. Seja pró ou contra o que eu penso particularmente, a liberdade de expressão é direito de todos (aliás, sendo bem sincero: vou ouvir a discografia dele com muito carinho, já que chamaram minha atenção com essa overdose).

E justamente nesse ponto é aqui que começa o problema.

Vejam bem: o trabalho de Roger sempre foi marcado pelo protesto, pela luta contra governos opressores. Inclusive “Animals”, um dos discos icônicos enquanto Roger estava na banda, tem um conceito que é um soco na cara de dois aspectos políticos diferentes: as ditaduras comunistas (em especial da de Stalin) e a extorsão capitalista dos direitos de muitos. Ou seja, é uma espada de dois gumes que não poupa os erros crassos de duas formas de política que são injustas, e onde quem se ferra é o povo. Só não vê quem é cego por ódio militante, seja ele de esquerda ou direita (sim, vocês militam pelo ódio, me perdoem a sinceridade).

Ao mesmo tempo em que são críticas inteligentes, há algo que apoia o trabalho de Roger: a liberdade de expressão, umas das conquistas da democracia. Inclusive nesse fatídico show, ele fez um discurso muito bom, e tiro um trecho que achei maravilhoso:

“Vocês têm uma eleição importante em três semanas. Vão ter que decidir quem querem como próximo presidente. Sei que não é da minha conta, mas eu sou contra o ressurgimento do fascismo por todo o mundo. E como um defensor dos Direitos Humanos, isso inclui o direito de protestar pacificamente sob a lei. Eu preferiria não viver sob as regras de alguém que acredita que a ditadura militar é uma coisa boa. Eu lembro dos dias ruins na América do Sul, e das ditaduras, e foi feio”. Eu endosso essas palavras, pois vivi 15 anos da minha vida sob o regime militar. Óbvio que me lembro dos governos de Geisel e Figueiredo mais abertos, e nada de Médici, um carrasco que matou muitos nos porões do DOI-CODI (eu era um garoto de 4 anos quando ele deixou o poder, em 1974). A ditadura de Pinochet quase que afogou o Chile em tanto sangue inocente. Esse sangue pode ser de direita, esquerda ou o raio que os parta, mas ainda é sangue, e de vidas ceifadas sem motivação.

E me perdoem: eu sou pró-Vida, contra o aborto (que me perdoem as feministas), mas contra a matança de pessoas jovens e adultas. Sou católico, logo, promover a dignidade da vida humana é uma obrigação (e ver cristãos de qualquer denominação apoiando quem usa discurso de ódio e preconceito nos discursos me vira o estômago). Peço licença aos leitores ateus/agnósticos ou de outra religião, mas minha crítica aos “cristãos” que apoiam assassinos: vocês REALMENTE leram os sagrados Evangelhos? Esqueceram-se das passagens da mulher adúltera, da pecadora que chorou aos pés de Jesus ou de São Dimas (o ladrão crucificado ao lado de Jesus), a quem ele prometeu o Paraíso? Senhores e senhoras, me resta dizer apenas: “ai de vocês, doutores da lei cegos e fariseus hipócritas!”

Voltando, são dias negros para o Rock. Se nós deixamos de apoiar a liberdade de expressão (mesmo quando alguém nos torra a paciência), caímos na censura. Seja ela de esquerda ou direita, politicamente correta ou incorreta, é um erro. Roger falou algo que a liberdade de expressão suporta, e não foi discurso de ódio, pois não foi nada de “xô, hetero” ou mesmo “xô, gay”. Só nos pediu para termos consciência de nossos atos, e parafraseando um amigo meu de História, “a pior das democracias ainda é melhor que a melhor das ditaduras”. Nem mortadela, nem coxinha, apenas consciência.

Não, não estou dizendo que deveriam ter votado em Haddad. Escrevo estas linhas antes do segundo turno, e garanto que não voto em nenhum dos dois, pois representam dos aspectos negativos do passado: um acredita que o regime militar foi bom (foi, se você não fosse alvo dos militares e/ou acusado por alguém, sem direito à defesa), o outro quer o assistencialismo barato de volta (sim, pois os anos de Lula e Dilma se resumem a isso). Vou ser muito sincero: vou votar nulo, pois não confio igualmente em ambos, e não irei me sujeitar de novo ao ódio. Nunca mais. Gosto do ar puro fora da caverna.

Também sei das agressões ocorridas por causa da eleição, antes e depois. Nunca me senti tão sem esperança de dias melhores para o país. Ainda mais vendo bangers apoiando atitudes que magoam, machucam e tiram a vida de outros seres humanos.

Eu me sinto triste. Antes, o discurso de Roger e mesmo o “ele não” seria visto com neutralidade; hoje, uns aplaudem, outros odeiam. Há até uma questão no Reclame Aqui. Pode ser fake, mas se for verdade, é o cúmulo da estupidez humana.

Sinto-me triste… Cada dia mais triste… Mas tenho a esperança que, apesar de tanta escuridão, uma luz irá brilhar e salvar a todos nós, e nem falo no sentido religioso…

Em tempo: em desagravo à ofensa feita aos eleitores do Nordeste por certos músicos, eu fico pasmo com o nível de ignorância que aparece a cada dia. Só quem nunca esteve por lá diria algo assim, pois as praias, o povo e as belezas do Nordeste são maravilhosos (e me permitam elogiar a beleza da mulher nordestina).

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