Tudo acaba, tudo começa…

Imagens: Reprodução/Internet

Em geral, esta coluna serve para dar uns tabefes necessários em uma parte do público Metal/Rock que, se não mudar de direcionamento, é completamente desnecessária. Mas 2017 já está chegando ao final, e desejo construir algo bom. Mas se preparem, pois vai doer em muita gente o que tenho a dizer.

Por Marcos “Big Daddy” Garcia

Vamos lá!

Já viram que basta algum veterano do Metal falar em disco novo que causa uma enorme comoção no meio? Pois é, acho esse tipo de frescura um tanto quanto… Fanática demais.

Exemplo: há poucos dias, o Judas Priest lançou a capa e um trechinho de uma música nova no Youtube. Foi uma autêntica febre e compartilhamentos no Facebook e Twitter. Me dei o direito de ouvir. Achei ótimo, mesmo porque Rob Halford é um dos meus cinco vocalistas favoritos de Metal. Mas me veio a lembrança amarga referentes não só ao Judas, mas a muitos veteranos: ao vivo, a maioria é uma brochada imensa.

Explicando: já vi shows do Judas ao vivo no passado (mais precisamente, no Rock in Rio 2, em janeiro de 1991). Eles arrasavam a ponto de por Queensryche, Megadeth e Guns ‘n Roses no chinelo, e eram bandas jovens naqueles tempos. Há uns anos, fui ver o DVD “Epitaph” e fiquei me perguntando: “mas que porra é essa?”, pois é uma enorme brochada: tempos mais lentos, afinações mais baixas, Rob cantando com tons mais amenos. Coisas que estão diferentes dos discos.

Já sei o que muita gente vai dizer: “Ora, eles estão velhos”, e concordo com isso. Mas sacaram uma coisa? Se eles não conseguem mais tocar da mesma forma ao vivo, por que ainda insistem em permanecer na ativa?

Um contraexemplo: Accept. Vendo “Restless and Live”, gravado em 2015, a sensação era que eles poderiam triturar o Judas. Sim, pois há tesão, paixão, energia. Os alemães estão vivendo um momento excelente na carreira, embora estejam longe de qualquer forma de inovação sonora (e não vou entrar no mérito dessa questão aqui).

Agora, eu acho que entenderam. O Judas parece morto, cansado e sem vontade de fazer longas turnês. E esse raciocínio vale para o Iron Maiden. E sem choro: quem já viu Bruce ao vivo, sabe que ele não consegue cantar certas canções (como “The Trooper”) como antes. Se não for um pastel que só enxerga o que te mandam ver, entenderá que eu tenho razão. Aliás, só ele mesmo, pois os outros membros estão em muito boa forma. O Deep Purple é outro, pois a voz de Ian Gillan não rende ao vivo há anos. O KISS sofre em certos shows, pois Paul não consegue mais cantar nos mesmos tons de antes.

Óbvio que existem bandas antigas que estão em ótima forma, como o já citado Accept, a velha tia Alice Cooper vem mostrando fôlego privilegiado, o Aerosmith sempre se supera. Mas os velhos mitos estão envelhecendo, e muitos já não conseguem manter o pique. Há certos shows que são vergonhosos.

Ozzy é outro exemplo de pé na cova, e ainda bem que parece que ele também quer se aposentar. Me perdoem os fãs, mas o velho Madman poderia ter se aposentado após a “No More Tours”, pois estava no auge. Depois dela, até “Scream”, nunca mais o velhinho fez algo solo de primeira.

O que fazer nesses casos?

Foto: John Mcmurtrie

Há casos que uma simples troca ajudaria, como Bruce poderia se aposentar e o Maiden seguir em frente. Tá, já sei que as brucetes surtaram com meu comentário, mas não sou nenhum fiel da Igreja Universal do Iron Maiden para achar que ele seja um deus. Aliás, não tenho deuses, já aceitei há muitos anos que todo mundo um dia tem que parar ou vai ser parado, como foi o querido Lemmy. Mas há casos em que as bandas realmente precisam da aposentadoria. Nada mais justo para quem já fez tanto.

Quando o Black Sabbath, pai por direito de tudo que amamos musicalmente, parou no início do ano, eu não fiquei triste. Apenas agradeci por ter podido viver numa época em que eles estavam na ativa, sem me importar com formações. O nome Black Sabbath é maior do que o de Ozzy, Tony, Geezer, Bill, Dio, ou outro que deseje citar. Só gostaria (dando voz ao fã que existe em mim) que o Sabbath tivesse gravado seu último disco com Bill na bateria. Mas infelizmente, Sharon Osbourne tem outros planos em mente, e eles acabam sobrepondo-se aos desejos dos fãs.

Encerrar uma banda não é um crime ou algo errado. Mas é muito triste ver um de nossos ídolos no palco fazendo vergonha. É a sensação que tive ao ver o Iron Maiden duas vezes (comecei a ouvir Metal com eles, em 1983), com Bruce perdendo o fôlego. Ele não é perfeito, não se cuida, como muitos de nossos músicos favoritos também nunca se cuidaram. Eles podem negar, mas a idade já anda pesando.

E se eles parassem, o que aconteceria?

Ora, existem bandas novas surgindo todos os dias. Como autor de resenhas tanto para o Brasil como para o exterior, vejo isso constantemente. O que falta, no fundo, é o fã parar de usar a porra da internet para tretar e prestar a atenção em bandas jovens.

Se você não se adapta às sonoridades modernas, existem bandas fazendo trabalhos ótimos voltados a formatos mais “Old School” (sem ficarem copiando o que já foi feito). Se bandas jovens com uma qualidade sonora mais abrasiva não é problema, vivemos o momento em que o Metalcore gera bandas muito boas. É uma questão de ouvir e se adaptar, de parar de se comportar como uma criança pirracenta falando que “o passado era melhor”. Isso é a maior ilusão, a maior alienação que se pode fazer. Negar o futuro em prol do passado é, inclusive, se posicionar como um conservador! Talvez seja esse o motivo de tanto bolsocretes enchendo o saco no Metal!

Como escritor de resenhas, vejo bandas que fazem sonoridades jovens ou antigas, e as aceito da mesma forma (enquanto não forem clonadores). Não sei se é o fato de escrever, ou por eu morar em uma cidade pequena que dista dos grandes centros (onde existem cenas formadas), mas sempre fui capaz de me adaptar aos novos tempos. Óbvio que sempre há um espanto inicial. Eu nunca esqueço minha reação, em meados de 1991, quando ouvi o “Altars of Madness” do Morbid Angel pela primeira vez: “isso é uma bosta!”, eu pensei. Poucos meses depois, estava apaixonado pelo disco (aliás, sou fã da banda até hoje). Ou seja: passa o espanto, você pode acabar gostando e se apaixonando pelo trabalho musical de alguma banda mais jovem. No Brasil mesmo, bandas como Fire Strike, Jackdevil, Saint Spirit, Pato Junkie, Miasthenia, Matakabra, Tupi Nanbha, Tamuya Thrash Tribe, Kamala, DarkTower, Lacerated and Carbonized, Funeratus, Silver Mammoth e tantos outros são mostras que o gigantes podem parar, mas tem gente com raça para segurar a onda deles.

Se me disserem que ninguém vai substituir o Iron Maiden, eu vou concordar, como eles também não substituíram o Black Sabbath, o Wishbone Ash, o Thin Lizzy, o UFO e tantos outros que vieram antes. Cada banda é única (exceto os clones), mas sempre haverá quem possa ocupar aquele espaço.

Ou seja: deixem que o Metal se renove, parem de criar deuses, não criem regras de como soar ou de como um fã tem que se vestir. Sempre há alguém novo para ficar no lugar do mais velho que parou.

No mais, agradeço a atenção em 2017, e desejo aos leitores (mesmo alguns mal educados que adoram encher o saco nos comentários das matérias) um feliz 2018, cheio de alegrias, saúde e paz, para vocês e suas famílias.

Fui!

Leave a Comment

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.