O Machismo no Metal

Foto: Reprodução/ E aí John

O Machismo no Metal – outra estupidez que parece não ter fim…

Por Marcos “Big Daddy” Garcia

 

E eis que quando tudo se direcionava para um tema, sou forçado a escrever sobre outro. E sinceramente, tem dias em que amaldiçoo a existência das mídias sociais!

24/10/2017. Pretendendo usufruir de seriados na Netflix, quando começa outro apocalipse zumbi na mina timeline: todo mundo já sabe do problema do show do Nervosa abrindo para o Venom no Chile. Já considerava o assunto morto, e vi até mesmo pessoas acusando a atitude do testudo anabolizado, que lidera o trio inglês (chamado Cronos), de machismo. Como sou da velha guarda, já sei que Cronos é um babaca desde 1985, quando conheci a banda. E continuo sendo fã dos velhos discos do trio, já que não vi motivos para deixar de gostar (e nem conseguiria, pois gosto é gosto).

Fiquei ‘fulo’ em saber que o trio brazuca é mais um a constar nas estatísticas de babaquices do Venom, assim como foram Raven, Manowar, Mercyful Fate e outros tantos. Mas me amargou a tarde/noite foi o seguinte: bastou o Venom lançar um comunicado oficial, e os defensores da banda surgiram. Até aí, entendo, pois fã é fã (mesmo quando defendem o que não tem defesa), mas NUNCA ACEITAREI, DE FORMA ALGUMA MACHISMO!

Sim, MACHISMO!

Definição: “Machismo, ou chauvinismo masculino, é o conceito que baseia-se na supervalorização das características físicas e culturais associadas com o sexo masculino, em detrimento daquelas associadas ao sexo feminino, pela crença de que homens são superiores às mulheres. Em um termo mais amplo, o machismo, por ser um conceito filosófico e social que crê na inferioridade da mulher, é a ideia de que o homem, em uma relação, é o líder superior, na qual protege e é a autoridade em uma família”.

Banda Nervosa. Foto: Felipe Endrehano

Ou seja, sua boca está soltando o veneno que existe em seu coração, pois se querem fazer apologias ao deus Testudo Bombado “criador” do Black Metal, poderiam fazê-lo sem serem ofensivos aos fãs do Nervosa. Mas não, não é de vocês ter um mínimo de educação, então, lá foi um bando de patetas acusando os defensores do “cheiradores de absorvente”, “Zé calcinhas”, entre outras. E o pior foram coisas que li sobre as integrantes da banda.

“Ah, isso não é machismo, não”, vão querer dizer. Sinto muito, mas se você escreve este tipo de coisa sem pesar as consequências, você É UMA PORRA DE UM MACHISTA! Se não prestou atenção, leia e repare em suas palavras, como elas visam a dignidade alheia. Não, você não quis defender a banda que ama, mas atacar a outros. Puro ódio destilado.

Bando de bolso-bangers ou bolso-buxas, ofender as mulheres é o que? Sim, ofender, pois chamar as pessoas desses termos acima é o que? Sinceramente, tenho cada vez menos esperanças no povo Metal… Ao invés de andarem para frente, estão se alinhando com o que há de pior no ramo humano!

Em um gênero musical, onde se tem autênticas guerreiras como Doro Pesch, Sabina Classen, Angela Gossow, Liv Kristine no exterior, além de Lady of Blood, Suzane Hecate, Flávia Monietari, as próprias meninas do Nervosa, entre tantas outras, deveria ter um pouquinho mais de respeito às mulheres. Mas não: é mais fácil ver um bolso-banger que um Banger com “b” maiúsculo, que vai meter o dedão na cara desses bobocas.

A verdade por trás disso é muito simples: o headbanger ainda não rompeu com a mentalidade da Casa Grande e Senzala, continua com a cabeça cheia de lixo ideológico conservocrata, alinhavado com os valores da bancada protestante do congresso. Continuam dando onda a gentinha como Alexandre Frotta e o MBL, que só os guiam como cegos para o abismo. Em quem acredita em gente assim, o Metal operou muito parcialmente, não chegou a causar mudanças reais.

E não, bando de conservo-bangers: você não precisa gostar da banda em questão ou defendê-la. Mas esperava de vocês um pouquinho mais de respeito ao ser humano. Mas acho que vocês só respeitam quando o senhor do engenho vem em sua direção com a chibata na mão.

Ok, sei que uma boa parte anda com os nervos à flor da pele por conta das extremistas. De fato, qualquer extremismo é perverso, um desvio de uma causa. Mas será que já perceberam que as extremistas no feminismo não quer dizer que são a maioria delas? Aliás, as feministas radicais lembram demais os fãs radicais de Metal: mais atrapalham que ajudam, e não refletem a realidade de um movimento.

O Feminismo, enquanto movimento, tem motivo justo de existência: a busca do direito de igualdade entre homens e mulheres, sem que um seja melhor que o outro, o que na realidade não o é. No fundo, temos uma construção social muito antiga, vinda das religiões abraâmicas e outras culturas onde a mulher deve ser submissa ao marido, em uma obediência semelhante a de Jesus de Nazaré ao Deus, algo dito por Paulo de Tarso em uma de suas cartas. Aqui se vê a justificativa ao machismo de ordem abraâmica (recomendo a leitura de toda a crítica avaliativa de Nietzsche em “O Anticristo”), enquanto algumas culturas pagãs (como no Egito antigo, entre os Vikings e os Celtas) a mulher tinha um papel mais proeminente, e as divindades femininas tinham atribuições de igual importância à masculina. Muitos fãs de Metal adoram pagar de pagãos, mas na hora H, manifestam o mesmo paternalismo do conservador. Ainda gostam do “bela, recatada e do lar”.

Aliás, aproveito para citar Madame Marie Curie como um exemplo.

Diferentemente dos extremistas, ela foi uma mulher importante em seu tempo, e que foi laureada com um Nobel (apesar de Pierre, seu marido, ter tido que interferir na decisão do comitê que queria dar o prêmio a ele, mas a nobreza em admitir o trabalho da esposa transcendia preconceitos). Mas ao mesmo tempo em que foi uma Física do primeiro time, também foi uma ótima esposa e mãe. E ao invés de “eu sinto que odiar os homens é um ato político honrado e viável” de Robin Morgan, “chamar um homem de animal é elogiá-lo. Homens são máquinas, são pênis que andam”, da doente Valerie Solanos (esquizofrênica, na realidade, cujo tratamento foi sustentado pelo homem que ela mesma tentou assassinar) ou “no patriarcado, todo filho de uma mulher é seu potencial traidor e também inevitavelmente o estuprador ou explorador de outra mulher”, de Andrea Dworkin. Madame Marie Curie disse que encontrou em Pierre “um grande amigo, um colega de pesquisa aplicado e um ótimo marido”.

Longe dos extremos, Madame Marie Curie sempre se mostrou uma mulher à frente de seu próprio tempo, mesmo na questão feminista. Creio que o meio termo entre cientista, mãe e esposa concede a ela o título de verdadeira mulher e de verdadeira feminista.

Voltando a falar sobre o Nervosa, a banda está crescendo muito, e talvez isso incomode demais a muitos. Mas isso já ocorreu, pois ainda lembro-me das pessoas insultando Sepultura, Angra e Krisiun em seus devidos períodos de crescimento, mas hoje, adoram pagar pau para os mesmos. Creio que é mera questão de tempo para ver o mesmo ofensor virar defensor.

Aqui mesmo na Rock Meeting vemos uma convivência bem harmoniosa: a chefe é a Pei, a Samantha na coluna “Skin”. Fora outras autoras de alto nível em outros veículos como a Iza Rodrigues no Menina Headbanger e a Isabele Miranda no Maximus Music Channel, além de Débora Brandão na Metal Media (assessoria de imprensa), além das meninas que citei acima e estão em bandas. Sim, elas podem e fazem um trabalho fantástico, basta abrirem os olhos.

Resumindo: se você odeia o feminismo, pense que existem extremistas como você do outro lado da questão, e ódio mútuo só leva à morte. Se você acredita que agressões contra as mulheres do jeito que descrevo acima, você acaba justificando as feministas radicais. Agora, se você diz que acredita na igualdade de direitos entre homens e mulheres, por que ofende uma banda exclusivamente feminina para defender seu deus pagão testudo e bombado? Poderia fazer sua apologia, seu direito, mas por que ofender os outros?

Para mim, não é uma questão de “machistas não passarão”, mas de não aceitar headbangers machistas. Banger e conservador a mesmo tempo é uma mistura meio… azeda…

 

“Lutarei até a morte

Lutarei esta luta para ficar vivo

Em meu coração sei que ficarei bem

Sei que é está em minhas mãos

Mudar este mundo ou deixá-lo na mesma

Resista e dê uma mão

Lute – Lute até que morramos

Erga seu punho para o alto – erga seu punho!

Erga suas mãos bem alto – Mãos bem alto!

Erga seu punho para o alto – erga seu punho!

Somos cães, cães do fogo!” (Doro – Raise You Fist)

2 Comments

  • Texto muito surpreendente e pertinente ao nosso tempo.
    Ainda mais vindo de um autor que a pouco tempo atrás dizia que batia em viado, tinha simpatia pela ditadura militar e reclamava do “politicamente correto”. Um perfeito propagador das ideias conservadoras mais idiotas…

    Vamos tentar acreditar que houve uma mudança repentina de comportamento e visão.

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