Metal e Homossexualidade

Foto: Reprodução/Internet

Metal e Homossexualidade – por que o headbanger é tão obtuso nessa questão?

Por Marcos “Big Daddy” Garcia

 

Nos últimos 10,15 anos, um dos grandes debates que ocorrem pelo mundo todo é a questão dos direitos civis da comunidade LGBTQ. Em geral, este autor acredita que os debates surgidos são muito bons, já que deveriam levar todos à consciência de que somos todos iguais, e que ninguém deve ser discriminado ou perder seus direitos individuais por possuir alguma idiossincrasia que difira do padrão dito “normal”. Óbvio que algumas discussões muito acaloradas surgem e causam problemas e radicalismos, mas somos capazes de evoluir, e mudarmos de opinião.

Mas por que será que o meio headbanger brasileiro ainda tem tanta resistência ao tema?

Aliás, por que será que ainda vemos fãs de Metal com palavras de ordem em apoio a pessoas como Jair Bolsonaro, Silas Malafaia, Marcos Feliciano e toda a bancada dita “evangélica” (questiono se merecem o nome, já que falam muito de Jesus, mas as ações contradizem os ensinamentos). Tal qual Boechat, os mando caçarem rolas! Vai ver, gostam disso!

Em uma primeira análise bem fria diante de tudo, ainda vemos a questão da família tradicional brasileira, aquela coisa de “moral e bons costumes” que se perpetua por aqui desde a época em que os índios trocavam ouro por espelhos. O Brasil é, antes de tudo, uma ex-colônia de Portugal, e faço questão de lembrar que, por isso, temos forte ranço conservador herdado dos colonizadores, e que Portugal era um país assumidamente Católico e contra reformista (ou seja, ficou ao lado da Contra-Reforma Católica do Século XVI).

Sim, o que vemos ainda é um resíduo dessa época, mesmo depois de quase dois séculos em que o país declarou sua independência. Essa resistência sem sentido tem suas raízes na moralidade do passado. Mas óbvio que existem fatores presentes tão fortes quanto.

Ainda falando da questão religiosa, é fato consumado que o Brasil possui uma enorme comunidade Protestante que pertence à Segunda Onda ou Terceira (nesta categoria estão as conhecidas igrejas neo pentecostais). Estas, por sua vez, possuem forte ranço fundamentalista, adeptos de uma interpretação literal da Bíblia. Não, longe de mim ser crítico da fé alheia. Cada um deve escolher o melhor para si, independente do que os outros digam.

Mas é justamente nesta frase final que uso acima que há um problema enorme: quando falamos de casamento entre gêneros iguais (o famoso “casamento gay”) e adoção de crianças por casais homoafetivos, estamos falando de direitos civis, ou seja, direitos individuais que cada um tem e que, de forma alguma, permite alienação por parte de quem quer que seja. É um direito que cabe a cada um e, em tese, não deveria ter interferências externas.

E não, não é culpa da igreja Católica ou das igrejas Protestantes, mas da interpretação errônea das coisas.

O Brasil é um país laico, ou seja, é um estado onde suas decisões são tomadas sem que nenhum tipo de fé religiosa entre no assunto. Isso não quer dizer estado ateu, longe disso: no estado laico, todas as religiões são igualmente importantes, sem que uma se sobressaia sobre a outros. Cristão, muçulmanos, judeus, kardecistas, praticantes de religiões de matiz africana, budistas, xintoístas e outros, perante a lei, possuem o mesmo peso legal.

Óbvio que isso sempre gera um desgosto por alguns setores mais conservadores e fundamentalistas, e já cansamos de ouvir “mas Jesus disse…”, e sou forçado a dizer mais uma vez: sua fé, sua responsabilidade e seu ônus. Nenhuma outra pessoa tem que sofrer porque você não entende que sua fé é sua, e mesmo que você tenha amigos que congreguem sob a mesma denominação, querer forçar a sua crença, a sua moral, o seu pensamento e ideias pela goela de outros está errado! É algo seu, e não seja um pateta arrogante achando que faz parte de algum exército ou está em uma guerra. Mesmo porque a concepção cristã fala em livre arbítrio, logo, cada um arca com as consequências dos próprios atos, logo, não é problema seu. Céu ou inferno para quem discorda de você não é da sua conta.

Exemplificando: não sou cristão, e tenho uma queda pelo Budismo. Isso implica que todo o arcabouço cristão de valores pouco me diz. Tem meu respeito, mas jamais terão minha adesão, ainda mais tentando forçar a barra!

E justamente porque os direitos civis individuais são da conta apenas de cada pessoa, ninguém tem que querer e muito menos tem o direito de forçar a própria moralidade ao outro. É sua religião, pombas, não a de todos!

Gosto muito de alguns chavões sobre o assunto:

– Se não concorda com o casamento entre gêneros iguais, não case com uma pessoa do mesmo gênero.

– Se não concorda com a adoção de crianças por casais homoafetivos, adote e promova a adoção das crianças, exija de seus deputados o fim da imensa burocracia para a adoção.

A comunidade LGBTQ é sofrida, e apenas há 10 ou 15 anos ela tem lutado por direitos iguais. Sim, os mesmo direitos que qualquer cidadão tem assegurado por lei, já que pagam impostos e possuem os mesmos deveres que qualquer um. Logo, por que não ter os mesmos direitos que você? Se evocar sua fé, torno a repetir: ela é um problema seu.

Além do mais, é péssimo ter que lidar com piadinhas esdrúxulas que são feitas todos os dias, o descaso dos poderes púb

licos quando alguém sofre preconceito. A pessoa tem o direito de ser feliz sozinha, óbvio, mas quem aguenta tanta gracinha, piada, e quando não chega à agressão e mesmo ao homicídio?

O Brasil tem um índice alto de mortes de pessoas da comunidade LGBTQ. Somente em 2016, 343 mortes, sendo que as distribuições dos três estados com maior número são São Paulo (49), Bahia (32) e Rio de Janeiro (30). Somente esses três estados têm aproximadamente 32% dos homicídios. E isso nos mostra que em 2016, 1 pessoa da comunidade LGBT foi morta a cada 25 horas! Os dados vêm do Grupo Gay da Bahia (GGB).

Demorei um pouco para falar mais de forma mais aprofundada onde o Metal entra nisso. Chegou a hora.

Simples: desde que Anitta (a cantora de funk) lançou um vídeo que tem participação de Pablo Vittar, desde que este último se apresentou no Rock in Rio, desde a “Queermuseu” ter causado alardes (bem como outras exposições censuradas pelo poder público e com a bancada “evangélica” presente em uma delas para fiscalizar denúnica por WhatsApp), e principalmente, no dia 19/19/2017, um dia após um juiz conceder uma liminar que permite que a homossexualidade fosse tratada como doença (o que vai contra as diretivas tomadas pela Organização Mundial de Saúde, que excluiu a homossexualidade do CID 10 em 1990 pela inexistência de provas que a mesma é um tipo de doença ou mesmo distúrbio), nunca vi tantas pessoas reclamando de outros de dentro do cenário Metal que estavam falando de forma homofóbica contra os membros da comunidade LGBTQ.

E é triste saber que nós, párias e renegados por uma grande parte da sociedade (inclusive religiosos de setores mais fundamentalistas e conservadores) somos incapazes de nos solidarizar com outros que, como nós, são estigmatizados como um “erro”, como alguém “defeituoso”, alguém que “não tomou porradas quando devia”… E o pior: ver que párias como nós se aliam a pessoas do poder político que são conservadoras e querem impor regras absurdas a todos. Tudo bem, não confundam Pablo com Dee Snider ou Anitta com Doro Pesch, ninguém precisa gostar deles, mas homofobia não tem justificativa, ainda mais de headbangers!

Quando vi essa atitude do juiz e dos bangers, minha mente lembrou dos livros e documentários que li sobre a Segunda Guerra Mundial. Aliás, para quem não sabe, a solução final de Hitler também foi usada na comunidade LGBT.

Estimasse que de 5000 a 15000 LGBTs foram levados aos campos de concentração, mortos e queimados. Há relatos que eram tratados com uma crueldade absurda, inclusive com o testemunho de Pierre Seel que recebeu um pedaço de madeira de aproximadamente 25 cm no ânus. Isso sem mencionar os que eram expostos aos piores trabalhos ou usados como alvos móveis para os soldados. E em Dachau e Buchenwald, campos de concentração mais conhecidos por seus experimentos em homossexuais, a crueldade imperava, com pessoas recebendo doses de testosterona por meio de tubos intracranianos! Eis uma das primeiras formas de “cura gay” do mundo!

Creio que a palavra “tortura” não seja desconhecida de meus contemporâneos.

Voltando: não sei o que causa esse preconceito no povo Metal, uma vez que éramos para ter jogados esses valores “tradicionais” fora, pois não se adequam ao que vivemos e pensamos, e tudo que ouvimos vai contra isso. Mas esse pensamento retógrado, machista e homofóbico precisa parar, e agora. Um headbanger apegado a essa visão “bolsomista” é algo semelhante a um “gendaken” que lhes digo: se pensarmos na Europa da Segunda Guerra Mundial, um headbanger apegado a preconceitos sem nexo é algo como um judeu que entregam outros judeus aos nazistas, acreditando que será poupado.

E torno a dizer: headbangers e a comunidade LGBTQ sofrem os mesmos tipos de preconceitos diante dos conservadores. Somos “erros”, aqueles que “não levaram uma surra na hora certa”, não somos “gente de bem”. Aliás, eu prefiro não ser “gente de bem”, mas um agente do bem. E os fornos dos novos campos de concentração já aquecem suas chamas, logo, seu burrobanger ou bolsobanger, você vai queimar da mesma forma que eu e outros, não será poupado!

No Metal, temos vultos como Rob Halford (do JUDAS PRIEST), Freddie Mercury (do QUEEN), Ghaal (ex-GORGOROTH, GOD SEED), Roddy Bottum (tecladista do FAITH NO MORE), Doug Pinnick (do KINGS X), e outros que já admitiram sua sexualidade publicamente, e eles deveriam ser compreendidos. São aceitos, pois poucos bolsobangers teriam coragem de jogar os discos deles fora ou mesmo insultá-los, pois o valor da obra deles é esmagador. E falar mal deles é cair no ridículo.

E mais: este autor não aceita o conservadorismo como via. Óbvio que já tive meus erros, pois já sou mais velho (47 anos de idade). Mas a convivência com os mais jovens, a maior compreensão e os debates me levaram a ter um choque de realidade. Mesmo sendo hetero, apoio a causa da igualdade de direitos da comunidade LGBTQ, bem como das mulheres, de todas as etnias, enfim, de todos. E não: a definição de leis que garantam e protejam os direitos das minorias não vai tirar ou diminuir os direitos de quem quer que seja, apenas vai acabar com uma zona cinzenta que vira uma autêntica zona de guerra ideológica. Heteros, cristãos e conservadores terão seus direitos civis individuais intocados. Mas ao mesmo tempo, as minorias citadas no texto terão os deles reconhecidos e garantidos. Ou seja, todo mundo vai ter que viver suas vidas quietos sobre os outros, quer sejam felizes com isso, quer não.

No mais, torço, faço apologia e me posto pelos direitos de todos. Ninguém deve ser privado de seus direitos, especialmente no que tange ao amor.

Encerro este texto com uma frase que disse estes dias: prefiro um mundo cheio de amor que um mundo cheio de cadáveres.

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