Museu Nacional em chamas

Foto: Fabio Teixeira/ Getty Images

Museu Nacional em chamas – Uma perda inestimável

Por Marcos Garcia

 

Domingo ensolarado no Rio de Janeiro, dia 02/09/2018.

Esta data ficará marcada na mente de muitos, pois na noite deste dia, o Museu Nacional do Rio de Janeiro, localizado na Quinta da Boa Vista (no bairro de São Cristóvão), deixou de existir. Consumido por chamas inclementes, uma boa parte de seu acervo foi destruído.

Ele foi a primeira instituição de cunho científico do Brasil e estava ligado à Geologia, Paleontologia, Botânica, Zoologia, Antropologia Biológica, Arqueologia e Etnologia. Era nele que estava um dos fósseis humanos mais antigos do Brasil, o crânio de Luzia, datado de 12000 anos. Além disso, como era ligado à UFRJ (Universidade federal do Rio de Janeiro), era uma instituição de pesquisa, sendo que ali, estudantes de graduação, Mestrado e Doutorado tinham aulas e faziam suas pesquisas.

Uma perda dolorosa para muitos, e alguns engraçadinhos falaram besteiras por aí. Infelizmente, tem gente que calada já está errada, e a internet lhes dá voz…

Tudo bem, eu sei que estamos em uma revista dedicada ao Rock e suas vertentes. Mas se pararem para pensar (e como eu gosto muito de dizer), “Rock é Cultura”, logo, o estilo perdeu um dos bastiões de seu bojo cultural.

É interessante falar nisso, já que tirando letras parnasianas, ou religiosas de qualquer tipo, e mesmo os temas sociais, o Rock acaba se aproximando das ciências e das artes em termos de temas.

Não quero ficar citando exemplos demais, pois gosto de deixar o leitor pensando e buscando por isso. Mas alguns se fazem necessários.

Cosmic Genesis, Visions from the Spiral Generator, e The Focusing Blur, 3 discos do Vintersorg (e os 3 que são com letras prioritariamente em inglês) possuem enfoque em áreas científicas, ou mais especificamente, a Física. O primeiro é uma ode à Astronomia, enquanto o segundo está ligado aos mistérios da Mecânica Quântica, e o terceiro, pelo que posso ver, a luta para conciliar ambas as teorias (a primeira tem suas vicissitudes, pois a Astronomia depende bastante da Relatividade Geral, que não se bica muito com a Mecânica Quântica). Sim, Metal e Ciência em um único lugar, mas existem outras bandas que trabalharam nisso.

Óbvio que as ciências Humanas têm seu espaço. Falar da Caverna de Platão como o Orphaned Land fez em “Unsung Prophets and Dead Messiahs”, ou o Inferno de Dante como o Iced Earth fez em “Dante’s Inferno”, e infindáveis outros.

No fundo, todos dão suporte à esta visão de que as artes (e por consequência o Rock) e as ciências estão intimamente relacionadas. Se pararmos para pensar, Da Vinci o fazia, pois quantos projetos de natureza científica o autor de obras como Mona Lisa e A Santa Ceia não propôs? Ou o ilustre Galileu com sua vida boêmia, regadas à música e bebida? A arte a ciência clássica tem muitos pontos de ligação. Lembro-os do clássico Frankenstein, de Mary Shelley. Há descrições no livro que realmente mostram que a escritora até poderia não saber muito de Anatomia (não me perguntem, não faço a mínima ideia), mas a questão da eletricidade dando vida à criatura vai de encontro às teorias de que os pensamentos nada mais são que pulsos eletromagnéticos por uma rede de neurônios. Os as belas obras de Julio Verne que pareciam prever o futuro?

Sacaram?

Para mim, que tenho tanto a Ciência (lembro-os: sou graduado em Física, e Mestre e Doutor em Geofísica) como o Metal ao meu lado, ambos estão interligados. E ver o Museu Nacional em chamas foi doloroso.

Indignado eu fico de saber que 3 bilhões de reais serão liberados para a campanha eleitoral, enquanto o Museu carecia de 200 mil para ser reformado. Sinceramente: o Brasil precisa aumentar o número de museus, e reduzir drasticamente seu número de cadeiras para cargos políticos. O Museu é útil, enquanto o político é uma negação.

Com uma tragédia tão triste dessas, hoje, partilho a dor e indignação de todos aqueles que, independente de ideologia política, sentem que nosso país ficou mais triste, menos culto e mais escuro…

 

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