Shows de Metal vazios

Foto: Bruno Sessa – Punany Fotografia

Shows de Metal vazios – Quais as motivações?

Por Marcos Garcia

Há alguns dias, vi uma postagem sobre os shows de antigamente, uma postagem sobre um show do Sepultura no Circo Voador (RJ) quando estavam lançando “Schizophrenia”. Show lotado, retrato de uma época mágica que, infelizmente, findou-se. Não, não tem nada a ver com “os anos 80 eram melhores” ou com “Facebook”, “WhatsApp” ou as comodidades dos dias atuais, mas com a mudança de vários parâmetros de lá para cá. E como eu mesmo não ando mais indo a shows, resolvi falar em uma visão pessoal do assunto. Se querem debater, procurem um chat na internet, ou seus professores de História e Filosofia, pois mesmo olhando os comentários em postagens, me recuso a respondê-los.

A primeira coisa: os tempos mudaram a percepção do headbanger sobre o que é a música da qual gostamos. Antes, como já mencionei várias vezes, éramos fãs de Metal com vontade de ouvir Metal e trocar ideias sobre Metal. Éramos diversificados, mas todos se respeitavam bem mais. Tinha ateu, budista, cristão, esquerda, direita, extremistas, mas todos se respeitavam e esqueciam as diferenças nessas horas. Existia o Death to False Metal, mas isso o tempo erodiu (e já foi tarde). Hoje, tem gente mais preocupada com bebidas alcoólicas, drogas de uso recreativo (não uso, não gosto, mas escolha de cada um), e mesmo com militâncias políticas do que em aproveitar uma tarde/noite de música na companhia dos amigos. Sinto muito, mas eu sempre preferi pagar por merchandising das bandas a tudo isso.

Houve shows em que eu me senti mal com discursos de vertentes políticas. Se vocês querem votar em Lula, Bolsonaro ou outro, por mim, tudo bem. Mas a falta de respeito ideológica mútua é de tostar a paciência. Que mania de faltar o respeito com quem pensa diferente, e muitos depois ainda se acham o supra-sumo da intelectualidade, quando nem mesmo conseguem pensar fora da J-A-U-L-A ideológica em que se encontram!

Já disse antes, e torno a dizer: shows de Metal não são palanques políticos ou lugares para isso. E vão problematizar com seus pais conservadores que os bancam, ou encher a paciência de seus líderes políticos que governam suas mentes!

Havok – Bruno Sessa – Punany Fotografia

A segunda: já viram a dificuldade de deslocamento para muitos? O Brasil tem problemas de transporte público a dar com o pau. Eu mesmo moro em uma cidade a uma hora de viagem (na madrugada, sem trânsito) do Rio de Janeiro, e a única condução é ônibus. Só que há disponibilidade de transporte 24 horas por dia, logo, sou obrigado a me adequar. Houveram shows em que tive que sair faltando 2, 3 músicas do setlist, pois eu tinha que trabalhar no outro dia. E com um detalhe: morrendo de sono.

Nos anos 80, os shows eram em horários de matinês aos domingos. Vi Sarcófago no finado Caverna II em 1986 (antes da coletânea Warfare Noise I ser lançada), em um show que se encerrou às 18h00min de um domingo; vi Vulcano em 1986 em um show que começou na tarde de um sábado, mais ou menos umas 5h, em Madureira; vi em 1987 Necromancer, MX e Taurus também em uma tarde de domingo, com tudo acabando às 18h. Talvez esses horários mais amigos ajudassem bem mais e devessem ser resgatados.

A terceira: a idade pesa. Sim, pois muitos já não têm o pique de antes, e o Metal parece ter um público essencialmente de pessoas acima dos 30 anos. Surgem as responsabilidades com família, filhos, e contas, e essas inviabilizam a constância em shows. Além disso, essas gerações mais antigas (como a minha) querem ir aos shows para curtir a música, e não ficar se metendo com tretas. Os mais jovens (já nesse modelo chato de ser de hoje em dia) acham que show é lugar para “problematizar”. Se querem mesmo ajudar em algo, faça doações a instituições de caridade, dê atenção a pessoas que realmente precisam de um pouquinho de seu tempo (idosos em especial), e só se conhecem duas profissões que realmente precisam da boca e da língua: político e prostitutas(os). Escolha seu caminho, e test your might!

Quarta: já que falamos em tretas, elas realmente são um fator a ser mencionado. Haja paciência! É mina falando de homens como “machos” (sinto muito se acham que os moleques que adoram as tratam como objeto, mas preferem-nos aos homens de verdade), banda A não se dá com banda B e o fã é posto no meio disso tudo, é gente falando de banda C porque um integrante é isso ou aquilo… Sinceramente? O lugar de gente assim é naqueles shows gigantes de músicos ou bailes (que não são de Metal, mas estilos populares) que nem ligam para suas existências, mas apenas para seu dinheiro!

Nervosa – Bruno Sessa – Punany Fotografia

Quinto: a realidade brasileira. Sim, até mesmo isso deve entrar na conta. A atual crise financeira arrancou o poder aquisitivo de muitos. Dessa forma, como pagar passagens, comida, bebida, merchandising e entradas? Começa a ficar pesado para qualquer um que não tenha nascido em berço de ouro. E existem produtores que realmente buscam viabilizar os shows, mas cada vez fica mais difícil.

Sexto: a falta de ousadia. Nos 80, íamos aos shows que podíamos sem muitas vezes nem conhecer as bandas. Eram apostas nossas, e valia por apoiar o cenário. Hoje, muitos preferem ir direto aos shows dos chavões. Nisso se percebe porque shows do Iron Maiden lotam, e nos de bandas do underground é um sufoco para chamar público. Tem horas que eu creio que os mais jovens (e alguns marmanjos) têm medo de gostar de bandas novas, que podem destronar os chavões.

Sétimo: cansaço de tudo acima. Esta é a mais pessoal de todas.

Já disse isso antes e torno a repetir: vendo tudo isso, a poltrona da minha casa se torna cada vez mais tentadora. Mesmo sendo da imprensa, conhecido e podendo pedir credenciamento (e depois ter que escrever sobre o show, logo, entrar em show de graça é história da Carochinha para alimentar ego de fofoqueiros), meu nível de desgaste com todos esses fatores foi/é tamanho que, sinceramente, nem King Diamond ou Steve Harris, dois músicos pelos quais nutro imenso afeto, me tiram de minha poltrona se minha disposição não estiver alta.

Permitam-me um desabafo: cansei de sair de shows no RJ quase meia noite, de chegar em casa às 2/3 da matina e acordar às 6/7 da manhã para trabalhar, morto de sono e sem pique. Já cobri shows dois dias seguidos, escrevendo a resenha do primeiro na madrugada de um dia para o outro (que para minha sorte, era de sábado para domingo). E não é fácil, desgasta, cansa corpo e mente. Logo, quando pensar em falar/escrever algo em seu Facebook sobre alguém da imprensa, tenha a delicadeza de ser justo. Não espero isso, mas tento conscientizá-los de tantos fatores que existem que vocês nunca se dão conta.

Mas tudo que fiz, como aprendi nos anos 80, visava para dar apoio. Hoje a mentalidade é outra, logo, nos resta ver onde isso vai acabar…

Espero de coração que haja uma mudança nesse rumo que o Metal está seguindo…

4 Comments

  • É realmente muito complicado. Já fui a shows em que contei, pasme, 9 pessoas na platéia. No SESC – com divulgação e a preço popular!
    Por quê? Porque era banda relativamente nova e não muito conhecida. Parece que é bem isso que você disse no texto – muita gente não quer descobrir coisas novas, só querem continuar ouvindo as mesmas bandas que ouvem há 20 anos (o que é muito bom), mas sem se importar com os novos artistas que surgem hoje, e que são justamente quem mais precisa do apoio do público.

  • Um ponto que mais me afasta de shows é a grana e transporte. Ingresso caro e na volta o transporte, hoje tem a facilidade do uber mas poxa, pegar ás 2h da manha com preço a 50 reais é complicado!

  • Ótimo texto, Marcos. Concordo com quase tudo, especialmente com relação aos horários dos eventos. Como eu gostaria de estar em casa antes da meia-noite e estar disposto para compromissos no outro dia. Haveria uma certa economia nisso também. A idade e família agradecem. Percebo, principalmente aqui no RS, que o público não se renova, nem bandas. São sempre os mesmos nos shows e a grande maioria já passou dos trinta. Isso é triste, pois lembro na década de 90 a predominância de adolescentes como público. Na época, muitas bandas também eram compostas de moleques.

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