Metal e Religião

 

Metal e Religião – Por que tantos aborrecimentos?

 

Por Marcos Garcia

Quero nesta edição dissertar a questão Metal e Religião.

Já fiz citações sobre este tema muitas vezes anteriormente. Mas creio ser necessário voltar a ele e dissertá-lo com mais calma, mesmo porque eu me converti (na realidade, voltei) ao cristianismo há pouco tempo. Ou seja, falo não mais de uma perspectiva externa, de quem vê a perseguição (persegui o cristianismo no passado, não nego), mas de quem é perseguido. Já houve um print por eu estar com uma camisa do Behemoth em meu avatar do Facebook, com a frase “sou Católico”. Não quis reagir ou dizer algo à pessoa que fez isso. Não vale a pena… Mas é preciso falar sobre isso.

Leiam, pensem e julguem como lhes convier. Não desejo mudar a opinião alheia. E peço aos leitores que se lembrem de algo que falo de mim sempre: sou um headbanger já com mais de 3 décadas de Metal, alguém que cometeu erros e acertos. Para começar, quero citar lembranças minhas.

Lembrança pessoal 1: no final de janeiro de 1987, após ficar curado de uma pneumonia, lá estava eu na Praça Saen Peña, no Rio de Janeiro. Em uma das galerias por ali ficava a antiga loja Heavy, de Zé Nilton, e muitas vezes, nos encontrávamos por lá para bater papo e comprar discos. Ainda lembro que havia comprado “Gates to Purgatory”, do Running Wild.

Já estava indo embora quando encontrei um amigo, Celso, que era a cara do Tom Gabriel Warrior. Ele estava de camiseta sem mangas, e no ombro (acho que no direito), um busto de Jesus Cristo. Óbvio que aquilo me chamou a atenção e perguntei se ele era cristão, e ele afirmou que sim. E um detalhe: ambos éramos cristãos (católicos), ambos ouvíamos Slayer, Bathory, Venom, e toda aquela leva de bandas dos anos 80 que adoravam falar em capirotagens.

Lembrança pessoal 2: em 1992, quando estávamos na segunda onda do Death Metal, surgiu o nome do Mortification. O “Scrolls of the Megilloth” havia acabado de ser lançado pela Nuclear Blast na Europa. Por aqui, de início, não houve problema algum, mas na Europa, encheram o escritório de Markus Staiger (dono da gravadora) de cartas reclamando pelo lançamento de uma banda cristã pelo selo. Sim, o mimimi chato que hoje tosta a paciência de todos é de origem europeia (e que, como sempre, o brasileiro absorve sem nem ao menos pensar no que está fazendo). Tomaram uma resposta pública que doeu nos ouvidos da turminha “capetalista”. E a versão nacional do vinil de “Scrolls of the Megilloth” vendeu bem rápido. Não cheguei a ver o disco nas lojas, pois todos compraram. Ninguém (ainda) ligava para letras ou religião alheia.

Nos anos 80 e início dos 90, as conversas entre ambos os lados eram comuns e saudáveis. O que nos importava era apenas a música que ouvíamos, e ninguém deixava de ser amigo do outro por diferenças do tipo. Muitos curtiam Metallica, Slayer e Megadeth juntamente com Stryper, Vengeance Rising, Barren Cross e outros.

Mas o que mudou de lá para cá, para vermos tanta intolerância religiosa no meio Metal?

Como já mencionei antes, o povo brasileiro tem o hábito de absorver qualquer forma de pensamento que venha do exterior, e que acaba sendo “aperfeiçoada” por aqui (o que explica a presença de movimentos neonazistas no Brasil). Com o sucesso comercial do Black Metal já em 1994, mais o surgimento das primeiras demos de bandas brasileiras do gênero, a importação de zines e revistas de fora com declarações de garotos radicais, começou o extremismo anticristão no cenário Metal do Brasil. Mas algo deve ser acrescentado: muitos dos fãs mais radicais são revoltados por conta de parentes cristãos ultraconservadores (infelizmente, muitos são motivo de problemas nesse sentido).

Eu sei disso porque li estes fanzines. Mas 90% daquela geração queria chamar a atenção, pois o besteirol nas entrevistas era cômico (caras como Satyr, Frost, Samoth e outros eram muito infantis). Mas de que valeu tudo aquilo? A maioria das bandas queria chocar pelo visual e letras, e focava os esforços na música. Por isso que Cradle of Filth, Emperor, Dimmu Borgir, Immortal, Enslaved e outros (de qualidade musical e criativa inquestionável) cresceram e substituíram nomes mais seminais.

É óbvio que, em entrevistas de bandas que abordam a temática obscura, se verá sempre algo polêmico. Mas existem aquelas que preferem uma abordagem mais objetiva sobre o que querem dizer: críticas às religiões, algo bem comum. Aliás, muitas delas fazem sentido e deveriam levar as pessoas praticantes à reflexão.

Há também certa influência da mania ateísta surgida do pensamento de esquerda que permeia escolas e universidades. Novamente: não é necessário o conflito, mas o respeito. Cada um acredita no que quiser, é direito individual. Não há como defender direitos LGBTQ+, de etnias, das mulheres, e tantos outros se não há respeito mútuo. E o direito religioso é um deles. Mas acredito que esse fogo cruzado vem da briguinha militante infantil de eleitores de Lula x eleitores de Bolsonaro, que anda tão em voga na internet. E vou ser bem sincero: sou apolítico, não milito em visões ideológicas, e ambos estão descartados para mim. Quanto a vocês, façam como bem entenderem…

Em tempo: não estou de forma alguma ofendendo o Black Metal. Sou fã do gênero há anos, e tenho muitos discos do estilo em casa. O que eu acho o fim da picada é: você tem o direito de se expressar e acreditar no que quiser, bem como as outras pessoas têm o mesmo direito. E o Metal, sendo filho do Rock, é um rebelde que prima pela liberdade, e a de credo está inclusa nisso, ou seja, acredite no que quiser, mas não aborreça os outros. Todo fanatismo escraviza, seja ele pró ou antirreligioso. Essas tretas políticas todas que vemos na internet refletem esta afirmação.

Muitos falam em uma “ideologia” obscura inerente ao Metal. O Rock nasceu de uma geração traumatizada com as consequências da Segunda Guerra Mundial, que casava na flor da idade, e assim, tomou conhecimento do quão breve é a vida. A necessidade de se divertir surgiu, tanto que a expressão “Rock ‘n’ Roll” se traduz “deitar e rolar”. E um dos compostos iniciais do Rock (de onde o Metal surgiu) é a música gospel americana. Óbvio que sei do “blues do capiroto” (uma canção de Robert Johnson, “Me and the Devil Blues”), que muitos usam como escudo. Mas se souber interpretar as coisas direito, verá que o Rock já nasceu neutro nessa questão. A tão falada rebeldia do Rock vem dos hippies dos anos 60, que se opunham à guerra do Vietnã por meio do “Flower-Power”. Esse pensamento político engajado entra no Metal em sua origem.

Parece que muitos não sabem interpretar um texto, e o mesmo ocorre na abordagem das le

 

tras de “Black Sabbath” e “N.I.B.”. Uma leitura das biografias do Sabbath, Ozzy e Tony seria revelador, e o próprio letrista da banda, Geezer Butler, já explicou o assunto em entrevistas. Eis uma recente AQUI.

 

O Rock cristão desde os anos 60. A primeira banda do gênero chama-se The Crusaders, um grupo de Southern Rock que lançou em 1966 o disco “Make a Joyful Noise With Drums and Guitars”, considerado o precursor de tudo que tem letras cristãs dentro do Rock (e do Metal, por consequência).

Lembrando que ter que aturar “regras” no meio já é algo chato. Antes de tudo, esse engajamento chato tem raízes na época da NWOBHM, só que o tempo passou, e novos conhecimentos vieram desde então.

Outro ponto: o pessoal fundamentalista “capirotista” sempre tem um parente, amigo ou colega de trabalho, escola ou outro, que é cristão. Você pode até afirmar que não, mas será uma mentira. E mentir para se justificar é hipocrisia.

Você pode acreditar no que desejar, e não precisa encher o Metal de regras ou tostar a paciência alheia. Existem pessoas no Metal que necessitam manter a pose para não serem rejeitados por outros, e buscam esconder o amor que possuem por pessoas cristãs.

Mas é necessário que isso aconteça? No fundo, quem faz isso não está mentindo para si mesmo? Ouvir e gostar de Metal, em nenhum momento, lhe pede tanto. Se você crê nesse modelo, está preso na Caverna de Platão. Eu te faço um convite: como já fiz a mesma coisa no passado, te convido a sair da Caverna. Venha, aqui fora é bem mais legal e divertido!

De novo: se você quer ouvir Bathory, Emperor e Dimmu Borgir, e depois Mortification, Barren Cross e outros, é problema seu, sem que ninguém queira se meter. Eu faço isso.

Cumpro minhas responsabilidades como cristão, e continuo ouvindo as mesmas coisas, escrevendo sobre música sem preconceitos. Já resenhei bandas com temáticas obscuras sem preconceitos após minha conversão. Tenho em mente o livro de Oséias (6,6): “porque eu quero o amor mais que os sacrifícios, e o conhecimento de Deus mais que os holocaustos”, que chama os cristãos à prática cheia de amor e caridade, e não à queima de discos ou militâncias contra isso e aquilo.

E quando pensar em usar sua liberdade de expressão para ficar de proselitismo capetista que irá ferir as pessoas, eu sugiro que é melhor pensar duas vezes. Pode acabar preso, pois a Constituição Federal é clara no tocante a liberdade de credo, em seu artigo 5º, incisos VI e VII, é bem clara. Quase ninguém no Brasil procura por direitos em tribunais, senão, a coisa seria bem feia.

A opinião de outras pessoas, os fofoqueiros do Metal, não importa a você. Pela última vez: ninguém tem nada com sua vida.

“Viva e deixe viver” ainda é uma boa forma de pensar e levar a própria vida. No fundo, cada um já tem a própria vida para cuidar, logo, que o faça…

 

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