O Mito da Caverna e o Metal

 

O Mito da Caverna e o Metal – Mudanças em mim, e em todos…

 

Por Marcos “Big Daddy” Garcia

 

Mais uma vez, a música me ajuda com um tema. Eu iria seguir a sugestão de um leitor na última Lapada, mas a ideia mudou, por ser mais abrangente. Inclusive responderá perguntas como “por que o headbanger cisma com o gosto musical alheio?”, entre tantas outras.

Procuro ler os comentários dos leitores, e vi que em minhas últimas matérias, perceberam a mudança que anda ocorrendo nos temas, e muitos estão confusos, com a boa e velha pergunta “o que está acontecendo?”. Creio que não posso deixar os leitores assim. Não é justo de minha parte com cada um de vocês.

A melhor forma de explicar o ocorrido é justamente através da Alegoria da Caverna, uma parábola de conhecimento criada pelo filósofo grego Platão há 2500 anos, e consta no livro “A República”.

Vou tentar ser o mais breve e claro possível, e lembro que a Alegoria da Caverna pode ser interpretada de muitas formas.

Imaginem um grande número de pessoas que nasceram e vivem dentro de uma imensa caverna onde não existe luz alguma. Essas pessoas estão acorrentadas e não podem ver o que existe por detrás delas, somente o fundo da caverna. Atrás, existe um muro baixo que não as permite enxergar o que existe além dele. Por trás do muro, passam pessoas com objetos inanimados nas mãos, e atrás delas, existe uma fogueira que projeta as sombras dos objetos na parede do fundo.

Todos os sons de fora da caverna podem ser ouvidos pelos que lá se encontram. As pessoas presas ouvirão os sons e verão as sombras, e associarão uma coisa à outra. Se você puder libertar uma das pessoas e mostra-lhe o que há por trás do muro e a fizer olhar para a fogueira, ela ficará momentaneamente cega e realmente confusa, e pode inclusive causar recusa no entender de tudo aquilo.

Ao sair da caverna e ver que existe um mundo real, cheio de luz e vida, este liberto irá perceber que tudo que viveu até aquele momento foi uma ilusão, uma mentira para manter as pessoas sob controle. Se ele retornar à caverna, com os olhos acostumados à luz, ficará cego. Os antigos companheiros irão crer que os efeitos ruins que a pessoa sente são devidos à luz, preferindo ficar na escuridão. E quanto mais o liberto tentar ajudá-las, mais ele será tratado como incômodo, até que por fim seja morto pelos antigos companheiros.

Em muito, ela mostra o pesar de Platão por seu mestre, Sócrates, que foi acusado injustamente, condenado, e que preferiu a morte por ingestão de cicuta ao exílio com a língua cortada. Sócrates, aos olhos de Platão, representava a Luz do conhecimento que se opunha à ignorância e ganância de muitos.

Sei que não é difícil interpretar, mas a Alegoria da Caverna ilustra “o efeito da educação e a falta dela em nossa natureza”. A caverna escura simboliza o mundo de uma pessoa sem conhecimento, e as sombras são os medos ilusórios que trazemos conosco; as correntes, os valores que aprendemos na vida que acabam nos adestrando e domesticando. O conhecimento é a luz que existe no mundo real.

O que quero dizer sobre mim mesmo nesse momento é simples: eu estive preso na caverna por muito tempo.

As correntes eram valores que aglutinei em minha vida, que nunca havia ao menos questionado se eram bons ou ruins. A escuridão da caverna era meu ódio e minha ignorância. Eu me via como esclarecido, como o sabichão, um líder entre os homens, o deus supremo do conhecimento que a tudo via com clareza, e mesmo esnobava o que me diziam. Quantas e quantas não foram as vezes que ofendi feministas, LGBTQs, pessoas da esquerda, disse que as questões importantes para as minorias eram mimimis, entre outras abominações que cometi.

Sim, eu admito: estava errado. Muito errado… Errado e distorcido pelo ódio.

Mas fui confrontado por meus erros em várias situações. Nisso, fui obrigado a olhar para a luz. Não havia fuga, pois era luz, e onde há luz da sabedoria e conhecimento, não há ignorância. Não havia escuridão onde me esconder.

O que aconteceu: primeiro foi ver o documentário “Auschwitz: The Nazi and The Final Solution” na Netflix no Carnaval de 2017. Sou um estudioso sobre história da Segunda Guerra, mas tudo aquilo começou a mexer no meu coração, pois existe uma diferença enorme entre você ler sobre algo e ver cenas e depoimentos. Meu Deus, ver como aquilo foi premeditado e sistematizado, como o povo judeu, ciganos, representantes LGBTQ+ foram assassinado de forma tão vil e sádica, que havia um ódio macabro por trás daquilo, acabou comigo! Foi quando comecei a perceber o valor da vida humana mais profundamente, pois até ali, eu via esse assunto de uma forma meramente teórica, e não prática.

O segundo foi ver os bombardeios de Donald ‘Dumb’à Síria e Afeganistão. Eu apoiei Trump na eleição para presidente por acreditar que um empresário, mesmo conservador, não iria causar mortes ou guerras, enquanto Hillary Clinton tem muitos familiares ligados à indústria armamentista, e poderia fazê-lo. Em essência, eu sou um pacifista antes de tudo, sempre fui. Mas os ataques me fizeram perceber que toda corja de políticos só quer chegar ao poder para benefício próprio, não importando quantas vidas sejam sacrificadas. Seja do povo sírio, seja das pessoas nas comunidades no Brasil, a carnificina é absurda… E o pior é saber que não é caro resolver esses assuntos.

Esses dois eventos me colocaram de joelhos, me fizeram questionar tudo que havia feito e dito até então por anos a fio. Tive uma mudança enorme, pois quis tentar desfazer todos os males que fiz antes. É quando a minha forma de escrever começa a mudar.

Há poucos dias, eu enfim saí da caverna definitivamente (ou assim espero): enquanto ouvia e escrevia o review para “Unsung Prophets & Dead Messiahs”, o mais recente disco do Orphaned Land, cujo conceito é centrado na Alegoria da Caverna (por isso a escolhi para este texto), foi a revelação final, o choque que enfim me transformou de vez. A resenha se encontra aqui, para quem desejar ler o texto.

Como disse acima, sair da caverna é sofrido.

Enquanto escrevia o texto da resenha, mergulhava mais e mais na realidade do disco e seu conceito, e percebi que, como a banda cita no release, a Alegoria da Caverna serve como uma espécie de profecia, pois mesmo com mais de dois milênios e meio, ela ainda é atual, e vai além da interpretação acima: querer permanecer na caverna é permanecer em nossas zonas de conforto.

Vamos matar qualquer um que tente nos ajudar, vamos insultar e matar qualquer um tente nos levar a questionar nossa situação e nos guiar à liberdade. Somos como o povo de Israel querendo voltar ao Egito, por mais que Moisés estivesse fazendo a coisa certa. Somos como os que queriam Hitler no governo da Alemanha na década de 30, pois compartilhamos o ódio que eles tinham. Queremos soluções que não demandem de nós trabalho ou que nos tirem da ignorância, enquanto a liberdade do conhecimento sempre exigirá de cada um de nós esforços diários em prol do melhor para nós mesmos e para todos. Para ser livre de verdade, é obrigatório que vivamos na luz.

Então, mais uma vez, olhei para meu passado e vi o quanto de mal eu realmente causei, quanta dor, raiva e ódio eu mesmo havia semeado. No ódio, nem percebi o quanto o sangue de muitos profetas e messias foi derramado na história pela ignorância. Para ser sincero, me senti como um dos assassinos dos profetas que não são cantados ou dos messias mortos que o disco fala.

Sei que nem sempre nomes históricos são unanimidades. Mas imaginem as seguintes figuras históricas: Mahatma Ghandi, Dr. Martin Luther King, Jesus histórico (ou mesmo o bíblico, como queiram), John F. Kennedy, Víctor Jara, Janusz Koczak. O que cada um deles tem em comum?

Todos foram anjos que vieram a este mundo regido pela ganância de políticos sujos, religiosos sacanas (não são todos) e uma mídia cujo compromisso com a verdade é questionável, e tentaram nos ajudar em nossas limitações. Pessoas que nasceram na caverna, como todos nós nascemos, mas que chegam ao conhecimento, que tentaram nos tirar dela, e foram mortos por isso. Seja por nós mesmos por nos negarmos a entendê-los, seja por aqueles que têm interesse em manter o mundo em uma imensa caverna, eles nos foram tirados muito cedo.

Eu me senti em uma fossa tão grande que, enquanto escrevia por horas a fio (em geral, escrevo rápido, em menos de uma hora está tudo pronto), mais eu sentia o peso opressor de meus erros. Mas as lágrimas que verteram por dias a fio era minha essência expurgando toda a dor, pois meus olhos estavam parando de doer e se adaptando à luz do conhecimento. Hoje, me sinto bem, sem ódio, e tenho estado com uma mentalidade mais positiva, e fora da caverna.

Agora, onde a Alegoria da Caverna se encaixa no Metal?

Eu vivo no meio desde que tinha 14, 15 anos. Vi coisas e formas de pensamento no cenário que não condizem com a proposta rebelde do Rock. Hoje, elas diminuíram, mas foram substituídas pela zona de guerra que toma conta das mídias sociais diariamente: esquerda versus direita, feministas versus machistas, LGBTQs versus heteros, religiosos versus ateus. Óbvio que estou tratando somente dos headbangers, deixando os outros públicos de lado. Mas é algo generalizado, e pelo mundo inteiro.

Tudo isso tem uma raiz comum: as trevas da caverna, no meu caso, elas são não apenas a ignorância, mas o ódio que nos permitimos ter aos diferentes. Um ódio militante que, em ambos os lados das contendas, visa sobrepor e oprimir o outro. Não há armistício, não há tréguas ou entendimentos. Apenas um tiroteio de ódio de todos os lados.

Por favor, não vejam minhas palavras como azedas ou acusadoras. Não é minha intenção. O que desejo: trazer cada um de vocês para perto da luz que dissipa a ignorância, para longe das figuras imaginárias que os amedrontam.

Ódio feminista é tão nocivo como ódio machista. Ódio LGBTQ+ é tão ruim como o ódio hetero. Ódio de esquerda é tão perverso como ódio de direita. O que desejo dizer é: toda e qualquer militância, enquanto permeada de ódio, é apenas uma corrente que nos prende à caverna, à ignorância. Há uma frase que vemos na internet sempre e ela traduz bem o que quero dizer: “A elite não tem ódio, tem astúcia; o ódio ela terceiriza”, e adivinhem quem fica carregando estes sentimentos ruins.

Isso, nós mesmos! Enquanto alguns se deliciam com essa arena romana moderna, pessoas perdem amizades, e se agridem (verbal e, ultimamente, fisicamente) em nome de calhordas!

No fundo, estamos todos presos a uma imensa caverna. O Metal virou uma caverna nos moldes da de Platão. Por isso, deixamos de ser vistos como rebeldes. Fazemos parte de todo um sistema, de uma matrix de ódio, que é cruel e desumana.

Tenha em sua militância não um punho fechado de resistência permeada de ódio, mas a mão aberta estendida para ajudar. Seu ódio não vai converter a pessoa ou fazê-la mudar de opinião, mas apenas tornará esta ainda mais agarrada a atitudes e opiniões opostas as suas. Nisso, Gandhi diz que “o amor de um único ser, neutraliza o ódio de milhões de seres”, pois ele ajudou a Índia a conseguir sua independência através da resistência pacífica, o Satyagraha (a devoção à verdade). Quantas vezes, em seus jejuns contra a violência, ele não alcançou a paz? Tão pleno no amor que pediu que seu assassino não fosse punido.

Não façam como eu já fiz: querer justificar o ódio com alguns atos de nobreza.

Na realidade, o ódio nos torna até horrendos para quem nos observa. Nunca repararam como as pessoas se sentem mal perto de você quando está irritado, quando assuntos assim o tiram da calma? Pode ser que seja isso que faça com que as pessoas saiam de perto de você quando fala em assuntos que defenda. E, além disso, o ódio macula a beleza que a natureza levou bilhões de anos para esculpir em cada um de nós, ou se acreditam em um deus, que ele nos deu de graça.

Mais uma vez, somos headbangers. Somos herdeiros de toda uma subcultura musical e ideológica em prol da paz e da ruptura de paradigmas perversos. Deveríamos estar com atitudes em prol dos menos favorecidos, não chamar cada uma delas de mimimi… Ao mesmo tempo, o ato de conscientizar as pessoas deve ser baseado na boa fé, na conversa franca e calma, no diálogo compreensivo mútuo, não em guerras ideológicas ou atitudes belicosas.

Relembrando meu último artigo, perdemos tempo falando de celebridades musicais de outros gêneros com os quais não temos afinidade porque odiamos as diferenças. Os bangers odeiam Pabblo, Anitta, Wesley Safadão e outros, e não conseguem falar de quem gostam porque a mídia os usou. As bandas de Metal se tornam as sombras no fundo da caverna, sua música mera alegoria, e o ódio vem da necessidade de alguém usar os presos para alguma coisa, um trabalho: divulgar o trabalho de artistas de graça, pois divulgação negativa (cheia de ódio) ainda é uma forma de divulgação. Os empresários ganham dinheiro com sua cegueira, e você, uma úlcera nervosa ou uma hipertensão.

E sinceramente, quando vejo tanto ódio trocado na internet, fico me perguntando quem serão os próximos nas câmaras de gás de novos Auschwitz-Birkenau, Treblinka (que foi onde o mundo perdeu a luz de Janusz Korczak), Sobibor, Chelmno, Majdanek. Ou mesmo trabalhos forçados em gulags. O seu ódio, seja ele de esquerda, direita, de qualquer tipo, pavimenta e ajuda a construir os trilhos que levarão um ou outro lado para eles. Seja qual lado for o vencedor, este irá oprimir e destruir o vencido. Ódio leva o genocídio.

Voltando aos anjos que citei acima, a força-motriz por trás de cada um deles era o amor. Cada um dos que tentam tirar as pessoas da ignorância o fazem com palavras e atos de amor, imersos em um sentimento de fraternidade que nos apaixona. Querer justiça social do governo, querer que os direitos de todos sejam iguais e respeitados, iguais condições, tudo isso nasce do amor. Todas as militâncias que vocês possam pensar nascem do desejo de justiça e igualdade, logo, derivam do amor. E onde há amor, não pode existir ódio revanchista, não pode existir a necessidade de oprimir o outro. Fazendo isso, qual a diferença entre nós e Trump com seus bombardeios, Hitler e sua xenofobia, Stalin e seus expurgos? Não se combate ódio com mais ódio, mas com amor… O ódio mutila e invalida qualquer coisa boa que sua militância possa fazer, e torna o objetivo inalcançável…

Amar acima de qualquer diferença não é impossível.

O próprio Jesus de Nazaré histórico, conforme relatos bíblicos, curou o servo de um centurião romano, perdoou uma mulher adúltera, bebeu da água dada por uma samaritana, comeu entre prostitutas e cobradores de impostos, se hospedou com o chefe dos coletores de impostos, entre outras coisas que, aos olhos dos fariseus e saduceus de seu tempo, eram proibidas. Inclusive morreu implorando para que seus executores fossem perdoados por aquele ato. Por isso, há vezes em que eu digo: se ele aparecesse hoje, estaria entre os marginalizados.

E o conhecimento nasce de algo que todos somos responsáveis: uma educação melhor. Uma educação que não existe no Brasil de hoje, nem mesmo nas melhores escolas particulares. É preciso uma educação democrática, consciente, em que os valores humanos não sejam medidos pelas posses dos alunos. Uma educação que seja preocupada em formar um ser humano, não uma engrenagem na máquina da caverna.

O amor não é puritano, o amor não é preconceituoso, o amor não é “normal” ou “anormal”, não tem gênero, não é opressor. O amor é uma capacidade que todos possuem de se importarem com o outro, sem nem ao menos pensar em qualquer diferença. É um sentimento que faz parte da luz do conhecimento, pois o que levaria um anjo da luz voltar à caverna para libertar seus iguais daquela ilusão sofrida de vida, mesmo arriscando a própria vida?

Esse é meu testemunho. De uma pessoa conservadora (e que se via como um liberal, para que vejam o nível de minha cegueira) e cheia de ódio, arrogante, cabeça dura, cego e alienado, me tornei um homem pacífico, sem ideologia política que não seja o bem de todos os homens, que vê em todos, não importando o quanto sejam diferentes de mim em opiniões e visões de mundo, são dignos do amor desses anjos que nos libertam como eu sou.

Tentemos todos nós, no máximo que pudermos em nossas limitações, merecer este amor, e tirar o Metal dessa caverna tão escura…

“Minha vida é minha mensagem…” (Mahatma Gandhi).

“Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor” (Paulo Freire).

“Aquele que desejar mudar o mundo deve começar mudando o sistema de educação” (Janusz Korczak).

“A educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem” (Paulo Freire).

“Eu não existo para ser amado e admirado, mas para amar e agir. Não é do dever daqueles que me rodeiam amar-me. Pelo contrário, é meu dever me preocupar com o mundo, com o homem” (Janusz Korczak)

“Canções de bravura serão sempre canções novas, sempre” (Victor Jara).

“O mundo não será destruído por aqueles que fazem o mal, mas por aqueles que os observa sem fazer nada” (Albert Einstein).

“Anjos caíram, caíram e morreram

Mas permanecem as nossas correntes

Santos sagrados, todos crucificados

Onde está a chave secreta que eles não puderam encontrar?

Eu sempre oro, os céus choram

Quando os pais falham, as crianças – Elas se levantarão?

Reina a escuridão e somos os escravos daquele olho que tudo vê…” (Orphaned Land – All Knowing Eye)

 

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