Por que o headbanger perde tanto tempo com aquilo que não gosta?

Foto: Igor Mota

Por que o headbanger perde tanto tempo com aquilo que diz não gostar?

Por Marcos Garcia

A internet é uma excelente fonte de temas para esta coluna. Nunca falha!

Na semana anterior ao Natal de 2017, muitos amigos comentavam a questão da mais nova sensação da música do Brasil: Pabllo Vittar.

Para início de conversa: não ouvi e nem pretendo ouvir. A música de Pabllo e semelhantes nunca foi algo que eu tivesse interesse. Reconheço a importância da representatividade do movimento LGBTQ+, tem meu respeito, mas não é minha praia. E justamente por este motivo, não tenho opinião formada, pois não preciso. Gostar ou não é um direito de cada um.

Agora, nos últimos meses, desde que Pabllo apareceu no vídeo de Anitta (outra artista pela qual não nutro nenhum tipo de sentimento), fez shows no Rock in Rio, e agora virou garoto propaganda da Coca-Cola, toda semana a minha paz some. É uma avalanche de reclamações e ofensas ao trabalho musical (e mesmo de teor preconceituoso) de Pabllo Vittar. Só estou citando isso para chegar ao centro da questão:

Por que raios o headbanger precisa tanto falar de um artista que ele não gosta? Que tipo de masoquismo é esse de querer ouvir um cantor de que não gosta para justificar uma opinião?

Torno a dizer: em termos de representatividade da comunidade LGBTQ+, é um avanço e tanto. Nunca um artista LGBTQ+ que não se ajusta em um padrão de normalização conservador fez tamanho sucesso. Óbvio que já vi nomes como Rob Halford, Renato Russo, Cazuza, e mesmo o de Freddie Mercury sendo citados como escudo. Mas nenhum deles fugiu do padrão conservador. Sobre Freddie, vou mais a fundo: no livro “Freddie Mercury – A Biografia Definitiva”, escrito por Lesley-Ann Jones, fica claro que quando o Queen lançou o vídeo de “I Want to Break Free”, quase que a banda acabou, pois a reação dos setores mais conservadores da indústria fonográfica norte americana, e dos fãs, foi a pior possível. O clipe foi banido da MTV americana, e o quarteto, dali por diante, resolveu não mais excursionar pelos EUA. A banda perdeu em vendagens por lá, mas ganhou o mundo.

Estranho que a reação a “I Want to Break Free” é semelhante a de muitos que disseram que nunca mais vão tomar Coca-Cola por causa de Pabllo… Haja paciência!

Fred Mercury. Foto: Getty Image

Ainda: nos anos 80, nenhum dos cantores e vocalistas acima se assumiu como gay publicamente, nem mesmo Cazuza o fez em início de carreira (e justamente o mais libertário de todos). Rob Halford, um dos primeiros, o fez na segunda metade dos anos 90, e como já mencionei em outros artigos, após sofrer anos com abusos de droga e bebida por não poder ser quem ele queria ser, mas o que queriam que ele fosse.

O headbanger continua, como muitos da sociedade brasileira, um prisioneiro. Prisioneiro do ódio ao que é diferente, ódio daquilo que poderia destruir um mundo conservador à lá Brasil-colônia. Um mundo que muitos por aí amam de paixão, por mais que seja uma contradição com os ideais do Metal e do Rock ‘n’ Roll, estilos que primam pela liberdade.

Se Pabllo é um músico bom ou ruim, pouco me interessa. Como já deixei claro acima, não é meu estilo, e justamente por isso, não tenho opinião formada. Até poderia, como crítico musical, falar algo, mas prefiro meu silêncio.

A única coisa que falo é: muita gente no Metal reclama do talento de Pabllo para cantar, ou de sua voz. Eu sou fã de vocalistas de Death, Black e outros onde a voz é feita com urros, gritos e berros. Onde alguém precisaria de talento para tanto? Aliás, existem tantos vocalistas de Metal que não possuem boas vozes por aí, mas sabem usá-las em suas limitações, que qualquer crítica nesse sentido me parece injusta, apenas para justificar o próprio preconceito.

E mais uma coisa: se não gosta de Pabllo, por que essa insistência em falar? Por que não compartilhar nas redes sociais músicas de bandas que gosta?

Aliás, Pabllo não é o primeiro caso. Já perdi as contas de quanto os headbangers perdem tempo com artistas que não gostam. E depois, ficam reclamando aos quatro ventos que o Metal perdeu espaço na grande mídia.

Não, meu povo… Não é que Pabllo, Anitta, Wesley Safadão ou outros tenham roubado o espaço de um músico que você gosta. São vocês que os divulgam, falando mal do trabalho de músicos assim. Boa ou má divulgação ainda é divulgação, ainda mais quando é gratuita e movida pelo ódio.

Por isso, encerro a coluna com um desafio: toda vez que pensar em falar mal de um artista que não goste, fale bem e poste algo de algum músico que gosta. Vai ser melhor para ti, para o Metal e para todos.

 

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